Do Your Dance!

  • Kenny Garrett saxofones

    Corcoran Holt baixo

    Vernell Brown piano

    Marcus Baylor bateria

    Rudy Bird percussão

     

    Mais do que qualquer outro músico no panorama actual do jazz tradicional, o saxofonista, compositor e arranjador Kenny Garrett e a sua banda são conhecidos por aliciar os públicos a saltar das cadeiras e deixar-se levar pelo groove. Seja em Espanha, onde um camaronês se levantou e começou a ensaiar uns movimentos afro, juntando-se a este um jovem a fazer breakdance; ou na Alemanha, onde um bailarino de ballet clássico se deixou contagiar; na Polónia, onde um fã saltou literalmente da galeria para o palco para dançar; ou num festival em Barbados, onde os amantes de música se levantaram e dançaram à chuva ao som de ‘Happy People’, o espectáculo é sempre o mesmo: a energia contagia e os movimentos surgem naturalmente. O quarto álbum de Garrett para a Mack Avenue Records, Do Your Dance!, é precisamente preenchido por este espírito, que o saxofonista instiga e testemunha nos palcos do mundo.

    “Eu olho e vejo as pessoas à espera de canções com que possam celebrar e expressar-se a elas próprias”, afirma Garrett, nove vezes eleito Saxofonista Alto do Ano pelos leitores da revista DownBeat. Do Your Dance! é inspirado nos momentos de dança dos vários públicos dos concertos. Alguns mostram-se relutantes em participar porque pensam que os movimentos de outros são melhores. Nessa altura eu digo: faz a tua dança! Não te preocupes com o que a pessoa ao lado está a fazer. Deixa sair tudo cá para fora e faz a tua dança! Na faixa principal, aliamos o espirito de um estilo de praia dos anos 70 com um toque de hip hop – sempre à procura da conexão entre os dois estilos. Pus a música a tocar enquanto estava à conversa com a minha filha no Facetime. Quando chegou ao fim, com aquele novo vibe, ela sorriu e eu pensei “Uh huh – gotcha!”.

    Do Your Dance! é um diário de viagem de ritmos, desde a melodia cadenciada de ‘Capypso Chant’ à suavidade da bossa brasileira, até ao espírito de um churrasco de Verão presente em ‘Backyard Groove’ e “Philly”. Kenny Garrett explica: “o tema ‘Philly’ foi inspirado nas pessoas presentes num festival ao ar livre onde tocámos, na Temple University. Aquela geração mais velha estava a entrar no espírito – a dançar hard bop, funk e calypso… qualquer coisa que lhes lançássemos! Era assim que se costumava dançar jazz.”

    Foi a inspiração na forma liquefeita que deu origem a ‘Wheatgrass Shot (Straight to the Head)’, uma das duas faixas com o rapper Mista Enz (Donald Brown, Jr.) de Knoxville, Tennessee. Recordando a origem da canção, Garrett explica: “uma amiga enfermeira falou-me dos benefícios para a saúde da erva de trigo. Pode misturar-se com mel ou sumo de fruta, mas eu bebi-a pura, e o sabor amargo provocou-me contorções corporais (uma outra forma de dança). Mais tarde, estava ao piano a brincar com o intervalo de segunda menor (o intervalo mais curto possível entre duas notas do piano) e reconheci-o como uma metáfora musical daquela erva de trigo a subir-me à cabeça! Conforme a música foi tomando forma, achei que precisava de um rap.” Garrett procurou em várias direcções, até que o co-produtor Donald Brown interveio calmamente, sugerindo: “O meu filho faz rap.” Entrou então em cena Mista Enz. “A primeira faixa que Kenny me enviou soava como se eles tivessem ligado o gravador a meio da sessão”, confessa Enz. “Achei que seria impossível escrever alguma coisa, mas era uma honra o Kenny querer a minha colaboração, pelo que tinha de pôr as coisas a funcionar. Não tive tempo de experimentar a erva de trigo, então pesquisei sobre ela na Internet. Kenny disse-me que o efeito que sentira fora como uma ‘injecção no cérebro’. Equiparo isso a euforia… o modo como uma mulher nos faz sentir. Fiz uma parte em freestyle e outra parte previamente escrita para me manter dentro do tema. Kenny telefonou-me e disse que era exactamente aquilo que procurava.”

    Incluídos em Do Your Dance! estão também ‘Persian Steps’ (construído do zero apenas com Ronald Bruner, Jr. na bateria e Garrett ao piano, acrescentando depois flauta, um cântico e uma caixa sruti – uma espécie de acordeão indiano que descobriu na Alemanha) e ‘Chasing the Wind’ (uma peça a alta velocidade na tradição dos standards bop com que os músicos de jazz se desafiavam tocando-os ao triplo da velocidade). Garrett dedicou ‘Waltz (3 Sisters)’ às suas irmãs. “As minhas irmãs sempre foram um apoio sob todos os pontos de vista. Onde quer que eu vá tocar, elas são as primeiras a aparecer. Às vezes não valorizamos essas coisas porque se trata da família… mas não tem de ser assim. Por isso escrevi um tema para elas.” Para este projecto, Kenny Garrett conta com um quinteto formado por músicos de topo: Corcoran Holt, que Garrett conheceu há cinco anos em Blues Alley, DC, e que participa no disco anterior Pushing the World Away; o percussionista Rudy Bird, que depois de tocar com Garrett na digressão de Sophisticated Ladies, em 1983, trabalhou com Michael Jackson e Lauryn Hill; o pianista Vernell Brown, Jr. com quem toca desde o disco Happy People de 2002; e o baterista Marcus Baylor, que se destacou inicialmente tocou na banda de Cassandra Wilson e logo a seguir com Kenny Garrett e como membro da banda Yellowjackets entre 2000 e 2010.

    Natural de Detroit, Kenny Garrett foi nomeado cinco vezes para o Grammy Award, tendo ganho este prémio em 2010 como membro da Five Peace Band liderada por Chick Corea e John McLaughlin. Recebeu um Doutoramento Honorário do Berklee College of Music em 2011. Começou a carreira na Duke Ellington Orchestra (liderada por Mercer Ellington) e tocou com Freddie Hubbard, Woody Shaw, Donald Byrd e Miles Davis (com quem alcançou fama internacional); mais tarde trabalhou com grandes músicos contemporâneos como Marcus Miller, Sting, MeShell Ndegeocello, Q Tip e Cameo.

    “O que pretendo com os discos e os concertos”, conclui Garrett, “é levar as pessoas a fazer a viagem que idealizei. Podem ser baladas bonitas, alguma intensidade, e depois uma grande festa! Quando forem embora, espero que sintam que tomaram parte nessa viagem. E quando voltarem para nos ver ou puserem o disco a tocar uns anos depois, espero que as pessoas tenham uma perspectiva da música mais profunda do que da primeira vez.”

     


    2017