• «O humor é uma coisa com a qual se nasce. É talvez o elemento mais sério que temos. Os grandes humoristas foram moralistas. Todos os grandes que fizeram do humor a sua profissão foram tremendamente éticos. Penso em Chaplin, por exemplo. Para mim o humor é uma forma de seriedade.»

    – Mauricio Kagel, in Público, 20/12/2005.

     

    A peça de Kagel tem apenas um andamento mas chama-se… Finale (como se fosse o último andamento de uma série deles)! Mas em que sentido é que esta peça é um Finale? A própria partitura chama a atenção para o facto de que «a partir da página 82 (…) o maestro e os executantes encontrarão uma série de instruções que vão para além do significado da palavra ‘finale’ no sentido puramente musical do termo.»

    Não desvendemos, por ora, que instruções são essas – e que tipo de humor encerram. Pois humor é algo que não falta nas obras de Mauricio Kagel, o compositor argentino que, chegado à Alemanha em 1957, com 25 anos, cedo se destacou por uma sensibilidade irónica e caricatural. Logo em Anagrama – obra de 1958, para quatro cantores, coro falado e ensemble instrumental –, ao mesmo tempo que assimilava as técnicas compositivas então em voga na Europa (o serialismo), Kagel revelava também um universo muito pessoal, intensamente cómico, fosse pelos diálogos nonsense ou pela presença de gritos, assobios, grunhidos e gemidos na parte do coro. Começou depois a desenvolver a noção de “teatro instrumental”, compondo peças em que os músicos se tornam verdadeiros actores – quase sempre com um elemento de ironia associado. Em Match (1964), por exemplo, representava musicalmente um concurso entre dois violoncelistas, arbitrado por um percussionista.

    Finale começa como uma peça convencional de concerto, fazendo suceder uma miríade de materiais musicais: uns de feição activa e enérgica, outros líricos e delicados; tocando por vezes o tutti, outras vezes pequenos grupos (vejam-se os interessantíssimos diálogos trompa-clarinete e violino-viola); e com um ou outro elemento humorístico aqui e ali presente (um ritmo demasiado banal para o contexto, ou uma sonoridade inesperada na percussão). Nesta peça, o elemento teatral só surge mais tarde. Na verdade, o seu impacto acaba por ser reforçado por essa ausência inicial. E repare o leitor – depois de ouvida (e vista) a peça – se não é (sombriamente) irónico que uma peça assim tenha sido composta para um concerto em que se celebravam os 50 anos de vida do compositor!

     


    Daniel Moreira, 2017