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    “[Um] elemento essencial do filme [é] a passagem progressiva do naturalista ao sobrenatural. Essa noção, que atravessa a obra, traduz-se na música por um número crescente de efeitos instrumentais. Técnicas de interpretação características da música moderna são também postas em relação com essa ideia de sobrenatural, de fantástico”.

    (Michael Obst, nota de programa do concerto de estreia da sua banda sonora para o filme Nosferatu)

     

    É habitual existirem várias bandas sonoras para um único filme mudo, muitas delas compostas anos e anos depois da realização do filme. Na verdade, era já prática habitual, no tempo do mudo, um filme ser apresentado com diferentes bandas sonoras, consoante a sala em que era projectado e os recursos de que ela dispunha: se dispusesse de uma orquestra, ela poderia tocar durante a projecção do filme; mas se a sala só tivesse recursos para contratar um pianista, um pianista seria. E o próprio conteúdo musical variava imenso, sendo frequentemente escolhido a partir de música pré-existente, com o auxílio de catálogos – as chamadas cue sheets – que identificavam diferentes tipos de música – por exemplo música de amor, música de cavalaria, música diabólica – cabendo depois a quem apresentava o filme escolher música adequada para acompanhar, a cada momento, o filme. Outras vezes, a música era simplesmente improvisada. Mas também acontecia, embora fosse menos frequente, encomendar-se a um compositor música propositadamente escrita para o filme: é o caso de Nosferatu, para cuja estreia, em 1922, Hans Erdmann compôs uma banda sonora original para orquestra. Entretanto perdeu-se grande parte da partitura original, mas ela foi recentemente reconstruída, a partir do que se foi conseguindo encontrar dela; podemos ouvir essa reconstrução na magnífica edição do filme lançada, em 2006, pela Fundação Friedrich Wilhelm Murnau. Entretanto, muitas outras versões surgiram, como a de Peter Shirman – uma banda sonora camarística composta na década de 1960 para acompanhar a projecção do filme na Europa; a de James Bernard, para o lançamento do filme em VHS, em 1996; e muitas outras ainda mais recentes, às vezes improvisadas, outras vezes compostas, como o acompanhamento musical com órgão e electrónica que o compositor austríaco Wolfgang Mitterer apresentou aqui na Casa da Música, em 2010.

    A banda sonora que hoje ouvimos é uma das mais recentes, composta por Michael Obst em 2003 para o Ensemble intercontemporain, e estreada a 8 de Fevereiro desse ano na Cité de la Musique de Paris, com a direcção de Peter Rundel (curiosamente, não é o maestro titular do Remix Ensemble que a dirige hoje, mas Brad Lubman). Não é esta, aliás, a primeira banda sonora para um filme mudo composta por Michael Obst: já em 1993 compusera música para outro filme expressionista alemão, o célebre Doutor Mabuse de Fritz Lang, também de 1922 (como Nosferatu). Mas Obst não é apenas – nem primordialmente – um compositor de cinema. Inicialmente, dedicou-se sobretudo à música electrónica, mas a partir da década de 1980 compôs cada vez mais música instrumental, tentando transpor para ela técnicas e sonoridades oriundas da electrónica. Ao mesmo tempo, seguia carreira como pianista, tendo sido um dos membros fundadores do Ensemble Modern – um dos mais importantes ensembles europeus de música contemporânea.

    A linguagem musical de Obst, é, de resto, resolutamente moderna – e moderna é também a linguagem do seu Nosferatu, perfeitamente enquadrada no contexto da música erudita contemporânea (não é por acaso que a música é encomendada pelo Ensemble intercontemporain). Obst recorre inclusivamente às técnicas de execução instrumental mais contemporâneas, como tocar os instrumentos de sopro com muito som de ar (em vez do som “puro” habitual); tocar os instrumentos de corda fazendo extrema pressão no arco, produzindo um som distorcido; ou utilizar multifónicos nos sopros (técnica que permite ouvir várias notas simultâneas, criando sonoridades diferentes das tradicionais). Como o compositor explica na nota de programa acima citada, essas sonoridades menos convencionais (os “efeitos instrumentais”) estão associadas, na sua música para Nosferatu, ao sobrenatural. Quer dizer, à medida que, no filme, passamos progressivamente de um registo natural para um sobrenatural (ou que o sobrenatural emerge, cada vez mais sinistro, a partir do natural), ouvimos uma proporção cada vez maior desses efeitos. No primeiro acto do filme (que se divide, no total, em cinco) os instrumentos tocam da forma mais tradicional e até os instrumentos de percussão utilizados, como o vibrafone, são de altura definida (quer dizer, tocam notas específicas). A partir do segundo acto, sonoridades mais ruidosas começam a emergir, incluindo sons de ar na flauta e sons de altura indefinida na percussão, como os bongós, que tocam ritmos ameaçadores logo a partir do início do acto. Mais para a frente, esses efeitos instrumentais tornam-se cada vez mais dominantes, sobretudo quando aparece Nosferatu. Nesses momentos, não só a sonoridade do ensemble é mais estranha e ruidosa (aludindo ao sobrenatural), mas o próprio ritmo é mais bizarro, parecendo o ensemble uma mistura caótica de ritmos e sons diversos, incongruentes. Há aliás vários momentos em que, quando a imagem passa de Nosferatu para Hutter, a música passa também dessa estranheza rítmica e tímbrica (no caso de Nosferatu) para ritmos simples e bem definidos, com os instrumentos tocados da forma tradicional (no caso de Hutter).

    Outras personagens têm também um tratamento musical próprio: sobretudo Ellen, à qual é associada, desde o início do filme, música de carácter mais suave e delicado, traduzindo a sua inocência e o seu coração puro. Um instrumento está-lhe particularmente associado ao longo do filme: a flauta. Curiosamente, a melodia da flauta que ouvimos logo no início do filme, aquando do encontro romântico entre Hutter e Ellen, e que evoca quase o som de um passarinho, é muito próxima da melodia, também para flauta, que Hans Erdmann compôs para este mesmo momento do filme: será esta uma alusão de Obst à banda sonora original do filme?

    Para além de retratar as diferentes personagens e a “temperatura emocional” de cada cena, a música de Obst relaciona-se também com o filme a um nível mais estrutural. Assim como Murnau dá ao seu filme a designação de “sinfonia” (Nosferatu: Uma Sinfonia do Horror), também a sua música é pensada em termos sinfónicos, dividindo o todo em cinco andamentos (correspondentes aos cinco actos do filme) e explorando, ao longo de toda a obra, um conjunto limitado de temas musicais recorrentes (que não são necessariamente melodias, podendo ser também tipos de sonoridade ou certas combinações instrumentais).

     


    Daniel Moreira, 2017 

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