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  • A inspiração no passado é também um elemento importante na música de Mauricio Kagel. Nascido na Argentina, fixou-se na Alemanha no final da década de 50, onde interagiu com as correntes estéticas de vanguarda. Um dos aspectos mais marcantes da sua obra é o alargamento do papel do músico. Assim, Kagel integrou uma dimensão teatral na prática instrumental, o que se encontra bem patente na Peça de Concerto para tímpanos e orquestra. Escrita entre 1990 e 1992, é baseada na sua obra Opus 1.991, para orquestra. Kagel transformou-a, acrescentando-lhe um instrumento solista sui generis, os tímpanos. A escrita para percussão solista afirmou-se como uma prática contemporânea, mas dedicar uma obra orquestral aos tímpanos ainda é um fenómeno raro. Assim, Kagel subverte a ideia do solista associada ao virtuoso romântico, apresentando uma obra pouco convencional para um instrumento que raramente desempenha essas funções. A peça resultou de uma encomenda da Orquestra Sinfónica “Arturo Toscanini” da Emília-Romanha, que a estreou em Reggio Emilia a 17 de Outubro de 1992, com Jean-Pierre Drouet como solista e Fabrice Bollon como chefe de orquestra.

    A obra tem uma abordagem humorística não só aos géneros para solista e orquestra, mas também à especificidade do instrumento. Com uma linguagem predominantemente diatónica, oscilando entre uma escrita convencional e uma abordagem mais livre, as atenções centram-se no virtuosismo do timpaneiro. Tendo em conta as suas características teatrais, é uma peça cuja eficácia assenta na visualidade da performance. Assim, à medida que a actividade do solista se torna gradualmente menos convencional, entramos numa espiral humorística em crescendo. A seriedade da sala de concertos, um templo para o público do século XIX, é subvertida pelo compositor, que mistura técnicas das vanguardas musicais contemporâneas com estratégias comunicativas próximas dos Irmãos Marx.

     


    João Silva, 2017 

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