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  • O trabalho de Heinz Holliger como compositor sempre andou a par do de oboísta, mas foi a partir dos anos oitenta que começou a ganhar maior reconhecimento. Recebeu vários prémios, incluindo, em 1994, o Prémio de Composição Musical da Fundação Príncipe Pierre de Mónaco pela peça (S)irató.

    Composta em 1992/93, encomendada pelos músicos da orquestra suíça do Festival de Lucerna, por altura do seu jubileu, esta peça foi dedicada a Sándor Veress, um dos professores de composição, que morrera nesse mesmo ano. O título forma-se a partir da junção da palavra húngara sirató, que significa canto fúnebre, com a palavra italiana irato, que significa furioso ou raivoso. Tanto o título como a música transmitem o luto e a luta interior que o compositor sente, assim como a raiva e indignação pela falta de reconhecimento que Veress recebera em vida.

    Holliger descreve o curso da sua própria peça, dizendo que “o canto ricamente decorado, similar à fala, de (S)irató parte do registo grave da orquestra, subindo gradualmente através de uma cadência selvagem em arpejos de todos os instrumentos de corda até um canto calmo dos violinos, sopros de madeira e celesta. Ao mesmo tempo soa, baseado no ostinato, um coral de cinco clarinetes, os metais graves e um gongo de água, assim como sons de sinos (como que de longe) criados por cinco plate bells (placas-sino), címbalo, harpa, piano e pratos.”

    A escolha dos instrumentos define à partida a paleta de cores usada. Não só logo no início como no decorrer de toda a peça, ouve-se a densidade das suas cores escuras na utilização do fagote contrabaixo, clarinete contrabaixo e contrabaixos e também a sua cortante clareza na utilização da percussão e dos registos agudos. Se há música que parece pintada a aguarela, esta é então pintada a óleos densos, que estão ainda por secar. Do mesmo modo, como Veress cria uma ligação à música tradicional húngara sem a citar, Holliger cria uma ponte imediata para o mundo musical do seu professor usando um címbalo na orquestra, instrumento típico da música húngara, que transparece surpreendentemente através da textura orquestral.

    A primeira parte é, como Holliger descreve, um canto, um discurso. Para além das cores instrumentais, dos gestos expressivos de cada instrumento e do todo que formam em conjunto, há que notar a importância do silêncio. Se há obras que começam e nos puxam e vão mostrando caminhos, como ouvintes, outras há que nos agarram, apenas para melhor podermos sentir como é sermos deixados sem amparo. A importância que o silêncio tem nesta peça é similar à força da gravidade para quem se vê à beira dum abismo. Atente-se portanto, também, em como nos soam os “silêncios” desta peça.

    Na segunda parte desta obra instala-se uma densidade furiosa (a “cadência em arpejos das cordas”), onde a falta de “silêncio” impressiona. Repare na riqueza sonora das várias vozes que formam esta torrente sonora que subitamente jorra livre e intensamente para só no final se acalmar, mas talvez sem realmente chegar a descansar.

     


    António Sá-Dantas, 2016 

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