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  • Uma confissão prévia: compor um Scherzo, ou uma qualquer forma pré-definida pela tradição histórica, estava longe das minhas intenções.

    É certo que o retorno às formas clássicas e barrocas atravessou uma parte da modernidade musical: virada a página do Período Russo, Stravinski revisitou a seu bel-prazer texturas, formas e estilos do passado; e na Viena de Schoenberg, descoberta a série dodecafónica como elemento (re)estruturador da linguagem, a sua validade foi sistematicamente demonstrada através do exercício dos grandes modelos clássicos. Porém, esta prática dos antigos paradigmas, irónica como em Stravinski ou devota como nos vienenses, foi banida com a chegada do Estruturalismo no pós-Segunda Grande Guerra Mundial: a necessidade de virar a página da história e fundar uma nova linguagem em imaculados princípios de coerência estética obrigava a uma pesquisa de novas formas emanadas da própria sintaxe serial e erradicava, como imperdoável heresia, qualquer referência às línguas mortas e seus modelos de escrita.

    Hoje, volvido mais de meio século, sobejamente firmados os grandes princípios estruturalistas, num mundo polifónico onde a herança da modernidade coexiste amenamente com as variantes do pós-modernismo e com todos os ecos e réplicas da mundialização, desvanece a heresia, e o destino surpreende-nos com uma provocação mordaz: e se escrevesses um Scherzo?…

    No princípio, era apenas uma sonoridade e uma ideia ainda vaga: colocar dois vibrafones em cena, cada um do seu lado do palco, e fazer alternar de um para o outro uma mesma nota, um mi bemol, que, pouco a pouco, de uma alternância de pontos se transforma numa linha e se espalha pela orquestra, conduzindo todo o fluxo musical. Neste jogo contrapontístico, nesta antifonia, há uma dimensão lúdica indisfarçável que me aproximou da ideia de scherzo, não como forma propriamente dita, mas como conceito.

    Aconteceu depois qualquer coisa de inesperado. Na temporada de 2013/14 dirigi uma obra de referência do último quartel do século XX, escrita por um compositor ilustre que, muitos anos antes, tinha marcado a minha formação e cuja partitura não voltara entretanto a abrir. Ao estudá-la naquele momento, tantos anos mais tarde, já não do ponto de vista puramente estético e composicional, mas do simples ponto de vista da eficácia da realização, dei-me conta de certas ideias de excepcional interesse que jaziam submersas, silenciadas por uma escrita instrumental ineficaz e por uma maré de elementos secundários que as desfoca e as oculta: ideias que dormem naquela partitura outrora emblemática e que, apesar de escritas, não são desvendadas e não chegam nunca ao ouvinte.

    Uma grave questão ética: ao dirigir uma página assim, devemos servir a ideia do compositor e desobedecer radicalmente à sua escrita ou, pelo contrário, deixar a orquestra soar como o compositor a escreveu e aceitar que, traída por uma escrita ineficaz, a ideia inevitavelmente se perde como uma utopia para sempre secreta e incógnita?…

    Pessoalmente, não ousei alterar a escrita daquela passagem e dirigi-a exactamente como o compositor a redigiu. Mas por um misto de voluntarismo e vício pedagógico, ou por um acto de homenagem a uma obra extraordinária cuja riqueza ultrapassou, por momentos, a capacidade técnica do compositor, quis desde então escrever uma página orquestral em que aquela mesma ideia, com uma realização inteiramente diferente, pudesse ver a luz do dia e emergir da utopia à realidade sensível.

    Explorar assim uma ideia imaginada por outro compositor, ainda que puramente abstracta e cuja remota origem é praticamente indecifrável, entrou na minha ideia de scherzo, aprofundou-a. E à medida que o scherzo ia nascendo, não ainda na forma mas no conceito, surgiam novas ideias marcadas por uma certa ironia.

    Uma delas era muito simples: partir de uma linha puramente monódica e desenvolvê-la numa ampla escrita orquestral. É quase um paradoxo: a pluralidade instrumental de uma orquestra pressupõe, em princípio, uma pluralidade de linhas que se entrecruzam, se contrapõem, se complementam. Escrever uma linha única ao longo de muitas páginas de partitura pode redundar num manifesto desperdício de meios e numa lamentável pobreza de expressão musical. Mas o desafio – o scherzo – era justamente esse: partir de uma linha simples e, pela pura arte da escrita orquestral, ramificá-la, desenvolvê-la, estendê-la no tempo e compor a cada passo o seu corpo, a sua espessura, fazê-la ecoar, construir a própria acústica envolvente através da paleta sinfónica, fazê-la brilhar de tal modo que ouvinte praticamente não se apercebe de que o que está a ouvir é simplesmente uma linha – …mas uma linha cantada por esse instrumento extraordinário, colorido e plural chamado Orquestra.

    Uma pergunta inevitável: solicitada pela Casa da Música com o propósito expresso de comemorar o seu décimo aniversário, esta peça contém nela alguma alusão específica à ideia de efeméride? De facto contém, ainda que puramente simbólica! Essa alusão exprime-se através de um elemento musical muito simples: uma série de fanfarras que atravessam a peça e que provavelmente eu nunca teria imaginado sem este impulso exterior: que forma mais directa para saudar a efeméride de uma fundação que uma jubilosa fanfarra?…

    Para compor estas fanfarras utilizei um instrumento muito especial: o trompete piccolo, com o qual é tocado, hoje em dia, uma grande parte do repertório barroco, com a exuberante fioritura que o caracteriza e que, por um capricho da história, se perdeu na transição entre o Barroco e o Classicismo. Triangulando na geografia da orquestra uma escrita a três trompetes obbligati, estas fanfarras conduzem o fluxo musical e entram jubilosamente na ideia de scherzo que governou toda a peça, nas suas diversas dimensões, e que acabou por governar também a sua forma, como uma resposta à provocação de um destino para onde tudo parecia confluir: e se escrevesses um Scherzo?…

     


    Pedro Amaral, 2015

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