• 1. Allegro molto moderato

    2. Adagio

    3. Scherzo

    4. Allegro con fuoco

      

     

    Até aos 30 anos de idade, a dedicação de Bruckner à composição foi relativamente marginal e irregular, concentrando o tempo noutros empregos, sobretudo como mestre-escola e organista. E entre os 30 e os 40 anos – na idade em que Mozart e Schubert já tinham, tragicamente, terminado a sua vida –, Bruckner era ainda estudante de composição (de resto, a sua formação como compositor, até esse ponto, tinha sido essencialmente auto­didacta). Foi, aliás, para estudar composição que Bruckner, inicialmente originário de um meio muito provinciano, no Norte da Áustria, começou a visitar Viena entre 1855 e 1861, para lá estudar com Simon Sechter, um dos grandes professores de teoria e composição da época. E depois disso, já perto dos 40, fez ainda estudos sobre forma musical e orquestração com Otto Kitzler (entre 1861 e 1863), sob cuja orientação escreveu um primeiro esboço de uma sinfonia, hoje em dia conhecida como Sinfonia n.º 0 (Bruckner retirou-a do seu catálogo por considerá-la um mero exercício escolar). É também por essa altura que descobre a música “mais avançada” do seu tempo, em especial as óperas de Wagner e a música sinfónica de Liszt. E é na sequência de todos esses eventos – e do sucesso animador da Missa em Ré menor, estreada em Novembro de 1864, em Linz – que Bruckner compõe, entre o início de 1865 e Abril de 1866, a sua Primeira Sinfonia.

    Tal como quase todas as suas outras sinfonias, também a Primeira existe em várias versões, resultantes de revisões que o compositor ia sucessivamente fazendo em diferentes momentos da sua vida (no caso da 1ª Sinfonia há duas ou até três versões, consoante o modo de as contar; de cada uma das três seguintes, por exemplo, existem três versões). A cada revisão, o compositor modificava não só detalhes de orquestração, mas também aspectos mais substanciais da estrutura formal, cortando até certas partes e acrescentando outras. Não há dúvida que esta sua prática se deveu, em grande medida, a um impulso perfeccionista. No entanto, parece que resultava também do seu carácter pessoal, algo inseguro e indeciso, hipersensível às opiniões dos outros; e há até quem argumente que essa necessidade constante de revisão se associaria a um distúrbio obsessivo-compulsivo. Muitas vezes, aliás, Bruckner revia as suas obras de modo a adequá-las a alguma teoria musical que tinha entretanto descoberto, como se temesse que a sua ideia inicial (mais intuitiva) não pudesse ser racionalmente sustentável. E muitos entendem até que, em alguns casos, essas revisões tornam a música menos intuitiva, mais rígida e menos interessante, razão pela qual as orquestras preferem por vezes tocar as versões originais (não revistas). É o que acontece com a Primeira Sinfonia, em que quase sempre se toca em público, não a versão final de Bruckner (de 1889-91, dita de “Viena”), mas a versão original, dita de “Linz” (não exactamente a primeira versão, de 1866, mas a chamada versão revista de Linz, de 1884 – tal como acontece neste concerto).

    Ainda que já se encontrem nesta Sinfonia muitos dos traços inconfundíveis da linguagem sinfónica de Bruckner – da orquestração densa, que evoca as sonoridades do órgão, aos desenvolvimentos lentos em que uma ideia se elabora continuamente ao longo de vários minutos –, é também certo que lhe parece faltar aquele clima espiritual e místico que caracteriza tantas das suas obras futuras (a Segunda e a Nona Sinfonia, por exemplo). A Primeira, pelo contrário, tem um espírito mais profano, celebratório e até festivo. Quanto à estrutura, divide-se nos quatro andamentos convencionais, que a seguir se descrevem brevemente:

     

    1º andamento (Allegro)

    Apresenta três temas: uma melodia rítmica e enérgica nas cordas, numa espécie de marcha, delicada e sombria; um tema mais lírico, que aparece inicialmente nos violinos e passa depois para os violoncelos; um tema heróico, com uma textura mais densa, em tutti, em que a melodia, muito rítmica, se encontra nos sopros, e as cordas fazem um acompanhamento cada vez mais agitado. Depois de uma secção mais instável, em pequenos episódios, reaparecem todos os temas iniciais, concluindo em apoteose, com os metais em primeiro plano.

     

    2º andamento (Adagio)

    Trata-se do andamento lento. A nível expressivo, pode ser visto como uma longa viagem, em que vamos sendo conduzidos de um início sombrio e misterioso até um final luminoso e positivo, com uma conclusão serena.

     

    3º andamento (Scherzo e Trio)

    Tem a estrutura convencional: começa com um scherzo, mais enérgico; segue para um trio, mais calmo; e repete o scherzo, no fim. O scherzo apresenta duas ideias principais: uma entrada furiosa e marcial, em tutti; e uma melodia mais dançável nas cordas, com sabor popular. O trio tem também duas ideias: uma linha simples, sem grandes sobressaltos e quase uniforme, que aparece nos violinos, em staccato (com notas curtas, destacadas umas das outras); e melodias mais expressivas e cantabile nos oboés e na flauta.

     

    4º andamento (Finale)

    Como o primeiro andamento, tem três temas: o primeiro é enérgico e peremptório, e aparece em tutti; o segundo é lírico, e centra-se nas cordas; o terceiro é novamente vivo e agitado, nele tendo grande destaque os metais (sobretudo os trombones). Depois de uma parte mais calma, em que os temas iniciais são desenvolvidos e recombinados, regressam os três temas, conduzindo a uma conclusão triunfal.

     


    Daniel Moreira, 2018

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