Sinfonia nº 2, Fluxversion 1

George Brecht , Nova Iorque, 27 de Agosto de 1926 / Colónia, 05 de Dezembro de 2008

[1962; duração variável]

  • George Brecht publicou três sinfonias. Reproduz-se abaixo a “partitura” da terceira:

     

    «Os membros da orquestra sentam-se na ponta mais à frente das cadeiras e seguram os instrumentos, prontos a tocar. Ao sinal do maestro, todos os executantes deslizam para a frente e caem suavemente das suas cadeiras, em uníssono.»

    Brecht compôs as suas três sinfonias entre 1962 e 1964. São exemplos de um novo “género” que ele próprio cunhou de event scores: partituras-evento. A partitura, neste caso, consiste num conjunto de instruções verbais que definem uma série de acções. Às vezes, as instruções são mais simples do que no caso supramencionado: por exemplo, a partitura do Quarteto de Cordas de Brecht diz apenas: “apertar as mãos”.

    Brecht era originalmente pintor e, nessa qualidade, interessara-se, ao longo da década de 50, pela aplicação de métodos aleatórios às artes plásticas. Voltou-se mais para a música a partir de 1958, ano em que se matriculou na classe de John Cage, na New School of Social Research, em Nova Iorque. Foi um momento decisivo: Brecht encontrou em Cage um equivalente interesse em métodos aleatórios (que este aplicara à música desde 1951) e a mesma vontade de diluir as fronteiras entre a arte e a vida, entre a performance e o quotidiano. Várias obras de Cage dos anos 50 exploravam já uma teatralidade muito concreta (para Cage, tanto a vida como a arte são eminentemente teatrais).

    No início da década de 60, juntaram-se a Cage e Brecht outros compositores nesta prática dos eventos (ou happenings), como Takehisa Kosugi e La Monte Young (muito em torno do célebre movimento Fluxus). Um dos aspectos mais curiosos desta abordagem é a sua mistura de humor e seriedade. Por um lado, toda a atitude experimental representava uma tomada de posição – bem séria – em relação ao que estes compositores viam como a mumificação da música clássica. Mas o insólito destes happenings envolvia também, claro, muito humor. Por exemplo, a partitura de Piano Piece, de Brecht, dizia simplesmente “um vaso de flores sobre um piano” – algo certamente muito cómico para ser apresentado como uma peça musical, mas também, ao mesmo tempo, uma crítica ao hábito burguês de fazer do piano um elemento de decoração.

     


    Daniel Moreira, 2017