• Após o 25 de Abril, a importância de Fernando Lopes-Graça para a cultura portuguesa foi reconhecida através de homenagens e encomendas estatais. Porém, uma parte significativa das suas intervenções públicas estiveram ligadas a actos promovidos pelo Partido Comunista, no qual militava e pelo qual foi candidato à Assembleia Constituinte (1975) e à Assembleia da República (1976). Também fez parte de várias missões culturais em visitas à União Soviética, onde lhe foi concedida a Ordem da Amizade dos Povos, e à República Democrática Alemã (1976) e viajou, em missões culturais promovidas pelo PCP, a Paris (1975) e Angola (1979), com o Coro da Academia de Amadores de Música; a Moscovo (1977 e 1985); a Budapeste, por motivo do centenário do nascimento de Béla Bartók (1981); e a Cracóvia, por motivo do Congresso dos Intelectuais para o Futuro Pacífico do Mundo, durante o qual foi estreada a sua obra orquestral Em louvor da paz (1986), quando Polónia era um Estado socialista.

    Este tipo de reuniões de “intelectuais pela paz” foi muito habitual durante os anos em que vigorou a União Soviética, sendo o seu carácter fundamentalmente retórico e propagandístico. A memória que o compositor guardou daquele acontecimento foi, porém, de carácter pessoal e musical: ficou maravilhado por ter sido uma das poucas ocasiões ao longo da sua vida em que teve a oportunidade de escutar, bem tocada, uma obra orquestral da sua autoria. E, de facto, nesta obra, tal como em muitas outras do seu catálogo, inscreve-se o conflito entre uma voz individual e “obstáculos” que impedem o seu desenvolvimento – ou “emancipação” – em termos musicais. A limitação do material pode ser, portanto, lida como uma metáfora do relacionamento castrador e trágico do indivíduo com o seu meio. Faz parte das obras de Lopes-Graça que concluem com uma espécie de amplificação dramatizada que inclui a comunidade, fixando nesta comunhão com o colectivo a possibilidade de uma conciliação. Porém, é o desespero, quase expressionista, o que predomina. Neste sentido, Lopes-Graça está próximo do Wozzeck de Alban Berg, autor que muito admirava. De facto, o “canon” modernista dos anos 20 (Stravinski, Hindemith, Bartók e Schönberg, para além de Falla ou Berg) é uma referência incontornável para Lopes-Graça, presente nesta obra.


    Teresa Cascudo, 2014

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