• 1. Animato

    2. Moderato

    3. Lento

    4. Moderato

    5. Animato

     

    Quando fui contactado por Manuel Dias da Fonseca para escrever uma obra para o Quarteto de Cordas de Matosinhos, tive emoções contraditórias, num misto de entusiasmo e de ansiedade. O quarteto de cordas é o recipiente de grandes obras da história da música. É, quiçá, o clássico dos clássicos. Algumas das nossas obras favoritas foram projectadas nesta formação de tamanha homogeneidade tímbrica e perfeito equilíbrio sonoro.

    De Haydn a Mozart, de Beethoven a Mendelssohn, de Zemlinsky a Webern, de Debussy a Ravel, de Bartók a Ligeti: um conjunto esplêndido de obras-primas que deixaram uma herança asfixiante. E quantas dessas obras não estão sedimentadas na nossa memória afectiva? Fazem parte da nossa cultura, dos nossos afectos, da nossa vida.

    O peso da história exerce uma enorme pressão: como a água dos mares a grandes profundidades. Por vezes apeteceu-me baixar os braços e desistir. Horas más, de marasmo, de desassossego estético. Mas não é o desassossego, afinal, o trilho da invenção?

    Segui o conselho de Ravel, quando lhe perguntaram se esperava pela inspiração para compor. Respondeu: “Estou todos os dias à mesa de trabalho entre as 9h e o meio-dia. Almoço e regresso ao trabalho entre as 14h e as 19h. Se a inspiração quiser aparecer, sabe perfeitamente onde me encontrar.”

    Resolvi não baixar os braços. Antes cantar a memória daqueles mestres amados. Daí o título: in illo tempore. Compondo, vou espargindo a sua memória através da minha. Como diria Camões “Se forem bons, é o mote de V.M.; se maus, são as glosas minhas”.

     


    Eurico Carrapatoso, 2009