Quarteto de cordas em Dó maior, op.33 nº 3, “O Pássaro”

Franz Joseph Haydn, Rohrau, 31 de Março de 1732 / Viena, 31 de Maio de 1809

[1781; c.19min.]

  • 1. Allegro moderato

    2. Scherzando: Allegretto

    3. Adagio

    4. Rondo: Presto

     

    Em Dezembro de 1781, depois de finalizada a composição de seis quartetos de cordas, Joseph Haydn enviava cartas a potenciais interessados. Nelas referia estes quartetos (op. 33) como sendo “de um género totalmente novo e particular, pois já não os escrevia há dez anos”. Sobre esta frase a controvérsia é muita. Os traços discerníveis como mais significativos neles são uma maior aproximação a um imaginário de música “popular” (como entendida no contexto aristocrático do século XVIII a que a obra pertence) e uma exploração mais assumida do humor, que se tornaria um aspecto muito celebrado do legado de Haydn.

    O Quarteto op. 33 n.º 3 (Hob.III.39), em Dó maior, é conhecido como “O Pássaro” devido às ornamentações melódicas espalhadas pela peça, que se assemelham ao cantar dos pássaros. Um dos exemplos é desde logo o primeiro tema do Allegro moderato (I), pleno de frescura e leveza, que insiste na nota Sol e a ornamenta antes de se libertar, veloz, num registo mais amplo. O tema secundário, executado por primeiro e segundo violinos, traz uma simplicidade quase pueril. No desenvolvimento a textura fica mais densa pela maior interacção polifónica, a paleta mais carregada, explorando tonalidade menor e culminando numa expressão harmonicamente tensa, particularmente expressiva, antes da chegada à reexposição. Na coda, uma aparente repetição do tema inicial põe um ponto final inesperado ao andamento. O Allegretto que se segue (II) destaca-se pela escrita homófona, num registo mais contido. Na secção central (designada tradicionalmente por Trio), esta peça traz, na verdade, um duo: os dois violinos dialogam, utilizando trilos e ornamentos que justificam, mais do que em qualquer outra passagem da obra, o epíteto que lhe ficou associado. O terceiro andamento (Adagio) oferece um lirismo e uma riqueza harmónica sem prejuízo de transparência, numa expressão calma que habilmente abre espaço para uma textura mais movimentada. Ao longo do andamento as técnicas de variação são usadas com mestria nas repetições. O Finale (IV), em andamento rápido, de uma jocosidade enérgica e contagiante, explora de forma assertiva a sugestão “popular” em forma rondó (como de resto será típico nos andamentos finais de Haydn). O brio instrumental é reforçado pelos episódios imbuídos dos estereótipos de música “húngara” da época, com notas rápidas em ágeis staccatos. As trocas motívicas entre instrumentos abundam, até aos compassos finais que terminam a peça com espírito leve e lúdico.

     


    Pedro Almeida, 2016