• 1. Andante

    2. Agitato

    3. Pesante

     

     

    Na obra do russo Alfred Schnittke, velhas dicotomias como tradição/modernidade, coerência/discrepância ou erudito/popular foram assumindo contornos peculiares, muitas vezes irónicos e surpreendentes. A procura que Schnittke levou a cabo desafiou convenções, resultando no chamado “poliestilismo”, que põe em evidência uma percepção invulgarmente descomprometida do passado, implicando uma profunda ressignificação de fragmentos e conceitos musicais aparentemente inconciliáveis, assim configurando um inusitado espelho do quotidiano do seu tempo.

    Composto no Verão de 1983, o Quarteto de cordas n.º 3 é exemplo particularmente claro desta concepção. Nos primeiros compassos do Andante que abre a peça, surgem justapostos os improváveis materiais basilares, resgatados de três obras do passado: uma passagem cadencial do Stabat Mater de Orlando di Lasso, o motivo inicial da Grande Fuga op. 133 para quarteto de cordas de Beethoven e a sequência de notas Ré – Mi bemol – Dó – Si (a conhecida representação musical do nome de Dmitri Chostakovitch, se expresso segundo a nomenclatura alemã: “DSCH”). A criatividade descomplexada de Schnittke ilumina as possíveis afinidades entre os diferentes materiais: os motivos são gradualmente transformados e inter-relacionados até ao ponto em que os resultados assumem uma existência autónoma, num processo que traz à memória a ideia da “variação contínua” patente na escrita de Brahms. No segundo andamento, Agitato, Schnittke tira partido das possibilidades de contraste em termos de forma e textura. Ao mesmo tempo que utiliza materiais derivados dos mesmos excertos fundamentais e demonstra uma afinidade clara com as sonoridades e texturas tradicionais do género (desde Haydn a Bartók, numa óptica tipicamente aberta), aposta numa alternância entre episódios de intenso dramatismo e momentos mais estáticos. No Pesante final, a obra retoma um tom solene, desenvolvendo as pontas soltas do primeiro andamento, num tratamento mais cromático e dolente, cujo culminar traz o memorável efeito final de pizzicatos que se vão rarefazendo sobre etéreas notas sustentadas.

     


    Pedro Almeida, 2016