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  • A adaptação de uma peça de teatro ao contexto instrumental implica uma selecção de elementos e a sua subordinação aos desígnios expressivos do compositor. Pensa-se que A Tempestade tenha sido a última peça escrita por Shakespeare. A narrativa situa-se em torno de uma usurpação e de uma história de amor, misturando feitiçaria, exotismo e romance. Dada a ubiquidade do universo de Shakespeare no Romantismo, A Tempestade foi a segunda abordagem à temática shakespeareana realizada por Tchaikovski, seguindo-se a Romeu e Julieta. Composta em 1873, é uma obra emblemática do período moscovita do compositor.

    Inicialmente formado nos moldes cosmopolitas do Conservatório de São Petersburgo, sob a tutela dos irmãos Rubinstein, Tchaikovski fixou-se em Moscovo, onde fundou o conservatório local. Nessa cidade, aproximou-se de elementos do chamado Grupo dos Cinco, músicos empenhados na promoção da música baseada em elementos tipicamente russos. A figura de Vladimir Stasov, o ideólogo e publicista do nacionalismo artístico russo, foi central para a escrita de A Tempestade, tendo fornecido as linhas gerais do programa. Assim, Tchaikovski traduziu a obra literária em música orquestral, numa peça programática de forte carga expressiva. O plano narrativo desenvolve-se em torno do amor entre as personagens Miranda e Ferdinando, com a interpolação de episódios relativos a outras personagens. Stasov planificou a obra da seguinte forma:

     

    «O mar. Ariel, espírito do ar, levantando uma tempestade a pedido do mágico Próspero. O navio de Ferdinando afunda-se. A ilha encantada. O despertar tímido do amor entre Ferdinando e Miranda. Ariel. Calibã. O amor do casal cresce, atingindo uma grande paixão. Próspero renuncia aos seus poderes mágicos e abandona a ilha. O mar.»

     

    Este foi o esquema seguido pelo compositor. A obra começa com uma longa introdução lenta, que tenta captar a atmosfera de uma viagem marítima. O estatismo é pontuado por alguns solos dos sopros, que, ao soar longínquos, procuram criar um espaço sonoro tri­dimensional. Há um aumento progressivo de tensão, revelando a presença de Ariel, que prepara a tempestade marítima invocada por Próspero. Surge um coral estático protagonizado pelos metais e uma atmosfera turbulenta, levando ao naufrágio que atira algumas personagens para a ilha onde a acção dramática se desenrola. Com esse naufrágio, torna-se possível o desenvolvimento da história de amor entre Ferdinando e Miranda, representado por um melodia lírica que é apresentada diversas vezes ao longo da obra, em variadas orquestrações. Assim, o colorido orquestral é essencial para a ligação entre a narrativa teatral e a obra musical. Com um breve retorno da atmosfera associada a Ariel, entra em cena Calibã – um deformado servo de Próspero, aqui representado por um interlúdio cinético e contrapontístico. O carácter lírico do amor entre Ferdinando e Miranda regressa, iniciando uma longa transição para a atmosfera da introdução lenta. Assim, o cosmopolismo de Shakespeare é adaptado ao contexto orquestral por um russo que, à época, se aproximava dos modelos que valorizavam elementos especificamente russos nas artes.

     


    João Silva, 2017 

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