Angels Burnout Graffiti

Johannes Kalitzke ,

[2012; c.24min.]

  • 1. Onkos
    2. Puppe aus Luft —

    3. Oriental Tattoo

    4. Golem —

    5. Menetekel

    Embora exclusivamente instrumental, Angels Burnout Graffiti alude a temáticas políticas, religiosas e sociais — nomeadamente através do título geral, dos títulos de cada andamento e de notas de programa publicadas noutras apresentações da obra. Refere-se, por um lado, a um célebre episódio bíblico (Daniel: 5), em que o rei Baltasar está a dar uma festa quando, de repente, uma mão fantasmagórica escreve uma mensagem enigmática na parede, aterrorizando Baltasar. O rei chama então Daniel para que lhe decifre a mensagem. É o colapso do seu reinado, para breve, que aí se anuncia: “Deus contou os dias do teu reinado e já marcou o limite”. Baltasar é morto nessa mesma noite.

    A ideia de uma mão escrevendo uma mensagem numa parede aproxima-se, claro, da prática dos graffitis urbanos. É essa a outra realidade a que a peça se refere — como dá explicitamente conta o título. Em ambos os casos, as mensagens (na parede) desafiam a ordem política vigente, proclamando o seu colapso — ainda que de forma mais eficaz e imediata, claro, no episódio bíblico.

    A obra divide¬-se em cinco andamentos. O primeiro parece procurar dar uma impressão, por um lado, de majestade e solenidade, e, por outro, de algo misterioso e terrível, evocando talvez a história de Baltasar (o poder temporal do rei face às misteriosas forças transcendentes?). Após um desenvolvimento gradual que nos leva a um intenso clímax, o ambiente muda para algo quase “extraterrestre”, com a entrada de sons electrónicos (ouvidos através de um rádio portátil) e do timbre distorcido do violinofone (um violino que amplifica o seu som através de um pavilhão de metal, como os metais da orquestra).

    O segundo andamento começa com um carácter muito mais delicado, mas sempre algo misterioso. Tal como o primeiro, desenvolve¬-se pela acumulação gradual de materiais. Em geral, parece ser dominado por paisagens oníricas (ou talvez, mais exactamente, por paisagens de pesadelo).

    O terceiro andamento é, de todos, o mais curto. Depois de um início violento, acaba por revelar¬-se essencialmente lento, contemplativo e até melódico, às vezes com um certo saber oriental (evocando porventura a Babilónia, de onde provém a história bíblica).

    Em contraste, o quarto andamento é rápido, vivo, rítmico, atribulado. Todos os instrumentos têm um comportamento rítmico elaborado e é da combinação de várias camadas distintas desses padrões rítmicos que a música ganha a sua complexidade. Ao nível melódico, destacam¬-se os metais, que são claramente líderes neste andamento, às vezes sugerindo a ideia de uma fanfarra louca ou desenfreada.

    O quinto andamento intitula¬-se Menetekel. Trata-se de uma referência às palavras que, de acordo com o episódio bíblico, a mão misteriosa escreveu no palácio de Baltasar: “Mene, Mene, Tekel, Upharsin”. A música parece sugerir uma espécie de cenário pós-apocalíptico: o início é marcado por um pulsar rítmico estático, sugerindo uma paisagem fria, desolada; aos poucos, o violoncelo e o violinofone começam a assumir um papel solista, sobre um fundo cada vez mais misterioso, em que os sons do rádio portátil vão ganhando destaque; depois, a paisagem sonora torna-se ainda mais irreal, à medida que fica menos rítmica, sugerindo uma ideia de desintegração (ou colapso) final.


    Daniel Moreira, 2015