Cinco peças para orquestra, op.16

Arnold Schoenberg, Leopoldstadt, 13 de Setembro de 1874 / Los Angeles, 13 de Julho de 1951

[1909, rev. 949; c.18min.]

  • 1. Vorgefühle (Premonições): Molto allegro

    2. Vergangenes (O Passado): Andante

    3. Farben (Cores): Moderato

    4. Peripetis (Peripécia): Molto allegro

    5. Das obligate Rezitativ (O Recitativo obrigado): Allegretto

     

    A primeira década do século XX assistiu ao estabelecimento e circulação dos cânones modernistas na música. Nesse processo pontificaram nomes como Alexander Zemlinsky, Arnold Schoenberg, Anton Webern e Alban Berg, que vieram a estar associados ao atonalismo. O meio cultural finissecular em Viena testemunhou directamente o desenvolvimento da psicanálise freudiana e a codificação de novas correntes nas artes visuais. Nesse contexto destaca-se a Secessão Vienense, um movimento interdisciplinar que criticava a ortodoxia das instituições artísticas do Império Austro-Húngaro. Essa interdisciplinaridade afirma-se como um aspecto central para o desenvolvimento da música modernista local. Os círculos artísticos da cidade incluíam artistas visuais, cientistas e músicos cuja interacção introduziu ao público várias tendências modernistas, entre as quais o Simbolismo e o Expressionismo. O percurso de Arnold Schoenberg é revelador desse contexto. Inicialmente destinado a uma vida de funcionário bancário, Schoenberg escolheu dedicar-se à música a partir dos 21 anos. Para isso estudou com o compositor e director de orquestra Alexander von Zemlinsky, um importante músico vienense. A relação entre ambos nessa fase era próxima, tendo Schoenberg casado com a irmã de Zemlinsky. Após uma formação nos moldes tardo-românticos, Schoenberg cultivou um estilo modernista, em que os modelos estéticos oitocentistas foram problematizados e, até certo ponto, abandonados. Esse estilo foi transmitido aos seus alunos Berg e Webern, que o metabolizaram de forma pessoal. Contudo, esse percurso não foi simples nem contínuo. A passagem de uma linguagem tonal do final do Romantismo a um estilo em que as referências da tonalidade se encontram ausentes deu-se de forma relativamente rápida no final da primeira década do século XX. Nessa altura, Schoenberg substituiu a harmonia funcional e a condução temática por um estilo fragmentário com tendência para o atematismo. Assim, diluíram-se os pontos de referência habituais nas obras musicais e novos cânones estéticos emergiram.

    As Cinco peças para orquestra pertencem a uma das fases mais criativas de Schoenberg, em que o compositor se dedicava a explorar as potencialidades do atonalismo. Compostas entre Maio e Agosto de 1909, as Cinco peças foram revistas pelo compositor em Setembro de 1949, e adaptadas a uma orquestra mais reduzida. Nessa altura, Schoenberg encontrava-se a residir nos Estados Unidos da América, para onde se deslocou de forma a evitar a Segunda Guerra Mundial. Com a ausência de um modelo narrativo, as obras têm um carácter aforístico, condensando brevidade e intensidade expressiva. A primeira versão das Cinco peças foi estreada a 3 de Setembro de 1912, num dos Concertos Promenade promovidos em Londres pelo maestro Sir Henry Wood. A recepção da obra foi bastante negativa, um aspecto recorrente na apresentação da música modernista de diversas tendências. Assim, uma perspectiva que valoriza a inovação constante colidiu com as instituições tradicionais de apresentação musical e com o gosto cristalizado do público.

    A peça Vorgefühle consiste na derivação de materiais musicais a partir de uma célula inicial, que é expandida, variada e distorcida. Essa expressividade é intensificada através da abordagem fragmentária à orquestração. Vergangenes contrasta com a peça anterior pelo seu lirismo. Baseada numa melodia angular que emerge recorrentemente, a obra apoia-se numa sólida e subtil técnica contrapontística, criando uma textura esparsa em que se destaca um carácter cantabile, melodismo que se vai intensificando progressivamente. O estatismo pontifica em Farben, onde as mudanças de textura decorrentes do aparecimento e do desaparecimento de alguns instrumentos ocupam um lugar central. O carácter cinético e tempestuoso de Peripetis, com as suas mudanças abruptas e orquestração exuberante, prepara o final das Cinco peças com Das obligate Rezitativ. Esta apresenta um tema principal contínuo que é entrançado com várias linhas contrapontísticas que adensam a textura. Assim, a valorização do contraponto surge como uma alternativa à teleologia harmónica, permitindo a construção destas miniaturas orquestrais de expressividade intensa.

     


    João Silva, 2016