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  • 1. The City and its Double –

    2. The song is for you

    3. Boulevard Night 

     

    Nesta integração de temas da música popular da qual temos vindo a falar, há um outro aspecto que também distingue a música norte‐americana da do continente europeu. A música dos Estados Unidos é muito mais inspirada em temas do quotidiano ou figuras públicas da actualidade, na sua própria cultura e no seu povo, não procurando tanto a inspiração, como acontece amiúde na Europa, nos grandes temas da cultura clássica e nas tragédias da Antiguidade. O compositor John Adams (n. 1947) é disso um exemplo. A peça que lhe valeu o Pulitzer Prize, em 2003, On the Transfiguration of Souls, prestou homenagem às vítimas do atentado do 11 de Setembro; a ópera que lhe trouxe fama mundial (1987) inspirou‐se na viagem do presidente Nixon à China; Doctor Atomic (2005) retratou a ansiedade vivida nos primeiros testes da bomba atómica; em Shaker Loops (1978), peça já escutada este ano na Casa da Música, fez igualmente uma referência à comunidade religiosa Shaker. Esta lista de obras com referências à cultura contemporânea é interminável no rol de composições de Adams, o mais prestigiado continuador da linha do minimalismo americano, corrente à qual deu um sentido de progressão harmónico mais presente, bem como um acrescido pendor melódico.

    City Noir (2009) resultou de uma encomenda da Orquestra Filarmónica de Los Angeles para o concerto de estreia do seu novo maestro titular, o jovem extremamente talentoso e mediático Gustavo Dudamel. A peça, para grande orquestra sinfónica, dividida em três andamentos e com uma duração total aproximada de 35 minutos, resulta numa homena‐ gem à própria cidade de Los Angeles.

    A descrição que o autor Kevin Starr (n. 1940) faz da Los Angeles do pós‐guerra na colecção de livros “America and the California Dream”, nomeadamente das comunidades multi‐culturais e da atracção que o sonho Hollywoodesco representava, deu o mote a John Adams para retratar a atmosfera dos “film noir” dessa época. Uma referência incontornável para a caracterização da realidade musical norte‐americana foi a inclusão de fortes referências jazzísticas na escrita sinfónica. Logo no primeiro andamento, o som de pizzicatos nos contrabaixos e a inclusão de um baterista jazz no set da percussão não deixam dúvidas quanto às influências da música que se ouvia nos clubes nocturnos da cidade dos anjos. O título desse primeiro andamento, “The City and its Double”, pode ser considerado uma alusão à existência física e geográfica da cidade num contraponto à multiplicidade de acções (vidas) que nela decorrem.

    Primeiro o saxofone e depois o trombone, ambos ganham protagonismo em “The Song is for You”, um segundo andamento mais lento e lírico que homenageia Lawrence Brown (1907‐1988) e Britt Woodman (1920‐2000), dois trombonis‐ tas naturais de Los Angeles e que fizeram carreira na orquestra de Duke Ellington. Após uma secção mais explosiva, este andamento termina com solos da trompa e da viola de arco.

    “Boulevard Night” é um passeio nocturno numa avenida de Los Angeles onde se cruzam diferentes noctívagos que John Adams comparou a personagens saídos de um filme de David Lynch, “daqueles que só saem de casa muito tarde e numa noite muito quente”. Há um solo de trompete que o compositor descreve como tendo um carácter “Chinatown” e um solo recorrente de saxofone que domina este último andamento onde se destacam, também, os importantes papéis do piano, da celesta, do vibrafone, das harpas e das percussões.

    A inclusão de ritmos latino‐americanos em City Noir não deixa de ser uma forte referência às comunidades hispânicas de Los Angeles e uma homenagem à própria origem de Gustavo Dudamel, o mais prodigioso símbolo do “El Sistema” venezuelano, um programa educacional implementado em 1977 e que conta hoje em dia com 125 orquestras juvenis. 

     


    Rui Pereira, 2011.

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