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  • Allegro di molto – Larghetto – Presto

    O Concerto em Mi bemol maior Wq. 47, para cravo, piano e orquestra, é uma obra ímpar. A inicial atracção deve-se à raridade da combinação dos dois instrumentos solísticos, uma escolha motivada muito provavelmente pela existência de instrumentos ‘vis à vis’ compostos por um cravo e um piano construídos na mesma caixa e ajustados de forma a formarem um só instrumento. Para além deste aspecto pouco usual, é fácil constatar que este Concerto – datado de 1788, último ano da vida do compositor – é uma verdadeira obra-prima; sendo a sua derradeira obra instrumental, assume ainda o papel de um testamento musical. Revelando a exaltante sensibilidade característica do Sturm und Drang (ou Pré-Romantismo) musical alemão, a obra constitui-se como uma conseguida síntese entre um eloquente sentimentalismo italiano, a coerência e força estrutural da tradição germânica e uma graça e elegância de influência francesa. Formalmente, é construído como um vasto tríptico sem interrupções entre os andamentos, e os ritornelos orquestrais são plenamente desenvolvidos, como numa sinfonia. Os acompanhamentos são muito requintados, apresentando uma grande variedade de texturas e recorrendo a uma extensa paleta de cores orquestrais, proporcionada pelo imaginativo uso das cordas – destacando-se as violas –, das flautas e das trompas. Pequenos motivos temáticos metamorfoseiam-se em células de acompanhamento, conferindo grande unidade à composição. O recurso a duas flautas – em vez dos mais tradicionais oboés – é comum a vários concertos para tecla de Carl Philipp Emanuel, e não só manifesta a sua predilecção por este instrumento como permite um maior equilíbrio sonoro.

    É necessário referir que a tradicional visão de que o piano substituiu imediata e completamente o cravo, devido às suas maiores capacidades expressivas, não é exactamente verdadeira. O piano foi inventado cerca do ano 1700 mas a primeira obra especificamente destinada ao instrumento data apenas de 1732. Ora, a grande parte das obras-primas para cravo são contemporâneas ou mesmo posteriores a essa data. As qualidades tímbricas e variações dinâmicas permitidas pelo instrumento foram inicialmente consideradas apropriadas para contextos muito íntimos devido à limitada potência sonora do instrumento, o que permitiu ao cravo conservar o seu papel como o principal instrumento de tecla solístico até à década de 1780, e manter-se em uso como instrumento de baixo contínuo até muito mais tarde. Foram sobretudo os compositores ligados ao Empfindsamkeit no Norte da Alemanha que mais se deixaram seduzir pelo piano, com as suas alterações graduais de dinâmica e as sonoridades veladas e delicadas. Carl Philipp foi um dos seus maiores cultores e no seu influente Tratado (1ª parte 1753, 2ª parte 1787) manifesta claramente a sua preferência, sem no entanto subalternizar o cravo. A forma como trata os dois instrumentos neste concerto é exactamente reveladora dessa atitude: fazendo-os partilhar o mesmo material e uma escrita quase indiferenciada, sabe discretamente evidenciar as melhores características de cada um: o cravo é ágil e brilhante, o piano é cantabile e patético.


    Fernando Miguel Jalôto, 2016

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