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  • 1. Allegro con brio

    2. Largo

    3. Rondo: Allegro

    No dia 5 de Abril de 1803, em Viena, Beethoven apresentou um concerto com nada menos que quatro obras suas: a 1ª e a 2ª Sinfonia, o 3º Concerto para piano e uma nova oratória intitulada Christus am Oelberge. Nesse programa – sem dúvida extraordinariamente longo! –, três das obras foram ouvidas em estreia absoluta, já que só a 1ª Sinfonia havia já sido estreada. As reacções dos críticos não foram muito entusiásticas, uns queixando-se da excessiva extensão da oratória e da falta de expressividade da escrita vocal, outros notando que a performance de Beethoven – como solista no seu concerto para piano – não fora da completa satisfação do público.

    Se as circunstâncias da estreia do 3º Concerto para piano são claras, o mesmo não se pode dizer das circunstâncias de composição. Os primeiros esboços parecem ter sido elaborados entre 1796 e 1798, mas tem havido dúvidas sobre o momento exacto em que Beethoven retomou a composição: uns defendem que foi logo em 1800 (não tendo conseguido finalizá-la para um concerto nesse ano), outros que foi apenas mais perto da efectiva estreia, em 1803. Até há pouco tempo, favorecia-se a hipótese de 1800, mas investigações mais recentes têm dado mais credibilidade à ideia de que a obra foi composta entre 1802 e 1803. Essa hipótese aproxima o 3º Concerto de outras obras fundamentais – e revolucionárias – como a 2ª Sinfonia, a Sonata para piano “Tempestade” e os primeiros esboços para a Sinfonia “Heróica”,que Beethoven igualmente compôs em 1802. Toda esta intensa actividade criativa coincidiu com um período de profunda crise pessoal, nomeadamente pelo agravamento da sua surdez e pela tomada de consciência de que ela seria provavelmente incurável e só tenderia, com o tempo, a piorar.

    De resto, o 3º Concerto tem também traços revolucionários, em particular pela monumental escala e intensidade dramática do primeiro andamento, uma clara expansão da forma tradicional do concerto (que os concertos anteriores de Beethoven ainda respeitavam). O andamento inicia-se com uma melodia solene, de feição marcial, em uníssono nas cordas, que gradualmente cresce em intensidade dramática tornando-se cada vez mais impetuosa e enérgica. Quando, ao fim de uns três minutos, o solista entra em cena – de forma brilhante e até explosiva –, é essa mesma melodia que nos dá a ouvir. Em oposição a esse primeiro tema, ouvimos depois um tema mais lírico e delicado (tanto na orquestra, primeiro, como mais tarde no piano), o qual apenas momentaneamente reduz a tensão: o sentido dramático, de facto, prevalece.

    Já o segundo andamento é lírico e pacífico, de uma ponta à outra. Começa com sonoridades delicadas no piano, num tema que Czerny (aluno de Beethoven) disse dever soar como “uma harmonia sagrada, distante e celestial”. A meio do andamento, há um momento verdadeiramente mágico em que a melodia principal, muito misteriosa, se ouve alternadamente entre o fagote e a flauta, e o piano acompanha com a sonoridade de uma harpa. É um efeito quase impressionista, de uma modernidade ainda hoje surpreendente e que, para além disso, reforça o sentido celestial do andamento (como é bem sabido, a harpa tem conotações celestiais).

    De acordo com a prática comum, o terceiro andamento volta a ser rápido, mas com um carácter mais descontraído (menos dramático) que o primeiro. Começa com um tema espirituoso e até algo sarcástico no piano, que é imediatamente repetido pela orquestra. Esse tema regressa periodicamente, funcionando como uma espécie de refrão, entre o qual se ouvem episódios variados, geralmente muito rítmicos. Aliás, o andamento está cheio de contrastes e surpresas, contendo também momentos líricos e outros cómicos. Há até um pequeno fugato, ou seja, uma passagem em que o tema é introduzido sucessivamente por vários instrumentos, começando nos violoncelos (que subitamente ficam sozinhos) e continuando com as violas e violinos. O andamento conclui em triunfo com uma das intervenções mais virtuosísticas e brilhantes do piano, plenamente coajduvado pela orquestra.


    Daniel Moreira, 2015

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