Error loading MacroEngine script (file: artista-header.cshtml)
  • 1. Deuil

    2. Obsession

    3. Ombres

     

    Encomendada para celebrar o 75º aniversário da Orchestre de la Suisse Romande, esta obra é uma homenagem ao artista suíço Louis Soutter (1871-1942), cujo percurso é evocado de diversas formas através de alusões estilísticas. Soutter nasceu em Morges (onde Stravinski se fixaria no seu período suíço) e desde cedo teve a particularidade de combinar as actividades de pintor e músico. Após um período de estudos de pintura em Paris, rumou a Bruxelas onde estudou com o famoso violinista Eugène Ysaÿe. Mais tarde emigrado na América por alguns anos, acabaria por regressar à sua Suíça natal gravemente perturbado. Antes de viver os seus últimos anos confinado a um asilo (e com dificuldades de visão que o levavam a pintar com os dedos), pôde ainda retomar a actividade musical, como violinista na Orchestre du Théâtre de Genève, recém-fundada por Ernest Ansermet – a precursora da Orchestre de la Suisse Romande, de cuja encomenda resulta esta peça.

    O Concerto, mais do que as restantes peças de Holliger, deixa entreouvir os dois principais vectores do seu percurso formativo musical. Aluno de Sándor Veress (que por sua vez estudara com Bartók) e de Pierre Boulez, Holliger reconhece na obra a presença do referencial húngaro (note-se a inclusão do cimbalão e a tendência para sonoridades percussivas, num ritmo que Holliger descreve como “corporal” e não meramente intelectual), bem como da tradição francesa de Debussy a Boulez (de onde se explica uma preocupação com o colorido harmónico e com os jogos de luz/sombra).

    Inicialmente, Holliger pensara tomar como mote o terceiro dos Nocturnos de Debussy (“Sereias”), cujo coro feminino pretendia manter no primeiro andamento do Concerto. A ideia acabaria por ser abandonada em favor de uma alusão mais indirecta: a música “soa como um coro, mas feito por instrumentos; não um coro falso, mas um coro instrumental”, nas palavras do próprio compositor. A instrumentação e disposição em palco são invulgares pela inclusão de um “concertino” central (harpa, marimba e cimbalão) que rodeia o maestro, o qual desenha “trajectórias, espelhos” que se reflectem na orquestra.

    Composta entre 1993 e 1995, a obra foi publicada e estreada com três andamentos, embora na imaginação de Holliger estivesse já presente a ideia de um quarto andamento que não chegou a materializar-se até anos mais tarde. Em 2002 surgiu a partitura final, composta por quatro andamentos e contendo um epílogo entretanto acrescentado (tendo por base o quadro Antes do Massacre, que Soutter pintara no dia de início da II Guerra Mundial). Na parte de violino solo, cuja execução foi experimentada em detalhe pelo próprio compositor, poder-se á apreciar a exploração de técnicas e timbres não convencionais por toda a peça. A inspiração para essa exploração foi, antes de qualquer outra, a técnica de Ysaÿe – professor de Soutter e amigo de Debussy.

    O Concerto para violino percorre o arco do século XX musical, sem colagem de citações, mas com livre-trânsito entre referências díspares, numa viagem desde um universo mais colorido até um cenário de escuridão. O primeiro andamento, intitulado Deuil (Luto), evoca a juventude de Soutter e é inspirado num quadro que retrata a sua irmã em pose dolente. A base para a escrita foi a frase inicial da Sonata n.º 3 para violino de Ysaÿe, que é citada nos primeiros compassos do Concerto, antes de dar lugar a uma sonoridade reminiscente do fin-de-siècle vivido por Soutter. A prenunciar o andamento seguinte chegam gestos nervosos. Esse enérgico Obsession (Obsessão, tal como o título de outra sonata de Ysaÿe) traz uma espécie de variações torturadas, dantescas, do cântico Dies Irae (que Berlioz usara tão famosamente na Sinfonia Fantástica), retratando não um quadro individual de Soutter mas sim toda a sua forma de expressão, numa tendência de maior aproximação à linguagem modernista. Sobre o terceiro andamento, Ombres (Sombras, aludindo também ao título de Ysaÿe Danse des Ombres), diz o compositor: “Aqui há muitas dimensões: sombras muito próximas, sombras a afastar-se para muito longe, sombras a lançar as suas próprias sombras gigantes, sombras que diminuem as figuras e finalmente sombras que transformam as figuras em algo bastante diferente”. A alusão reflecte um traço particular de alguns quadros de Soutter a preto e branco (positivos/negativos) que, quando mudados de ângulo, mostram uma imagem diferente e imprevista, como a sua alma torturada que Holliger retrata. É particularmente relevante a referência ao legado de Debussy a propósito deste andamento, pela exploração de gradações de luz cuidadosamente geridas.

     


    Pedro Almeida, 2016 

x
A Fundação Casa da Música usa cookies para melhorar a sua experiência de navegação, a segurança e o desempenho do website. A Fundação pode também utilizar cookies para partilha de informação em redes sociais e para apresentar mensagens e anúncios publicitários, à medida dos seus interesses, tanto na nossa página como noutras. Para obter mais informações ou alterar as suas preferências, prima o botão "Política de Privacidade" abaixo.

Para obter mais informações sobre cookies e o processamento dos seus dados pessoais, consulte a nossa Política de Privacidade e Cookies.
A qualquer altura pode alterar as suas definições de cookies através do link na parte inferior da página.

ACEITAR COOKIES POLÍTICA DE PRIVACIDADE