...Da un divertimento, para dez instrumentistas

Salvatore Sciarrino, Palermo, 04 de Abril de 1947

[1970; c.20min.]

  • 3. Romanza: Adagio

    4. Veloce

     

    Praticamente todos os comentadores identificam em Sciarrino qualidades poéticas e oníricas, assim como um sentido de mistério e intimidade que se encontram, decerto, a léguas de distância da abordagem mais neutra, desconstrutiva e espirituosa de Brecht (ou Cage). Outro aspecto característico de Sciarrino é um sentido de delicadeza e fragilidade: muita da sua música é feita de murmúrios e balbucios, por vezes quase imperceptíveis. Os títulos das suas obras são esclarecedores: Alegoria da noite (1985); Todas as miragens da água (1987); O som e o calar (2004).

    Sciarrino é também um dos grandes reinventores do som na música contemporânea. Ele e Lachenmann são talvez os maiores protagonistas, a partir da década de 1960, de uma nova forma de pensar o som musical, rejeitando as sonoridades “normais” dos instrumentos em favor de sonoridades até então tidas por marginais.

    Em …Da un divertimento os sopros exprimem-se a maior parte das vezes pelo som do ar e as cordas tocam quase sempre em harmónicos, opções que não só fazem tábua rasa da sonoridade habitual desses instrumentos como também ajudam a construir essa atmosfera frágil e misteriosa tão característica do compositor. É, de resto, espantoso que, sendo esta uma das primeiras obras de Sciarrino, estreada em 1970 (quando tinha apenas 23 anos), revele já tanto do que se viria a afirmar como o seu estilo tão único e pessoal.

    Em rigor, Sciarrino nunca chegou a completar a obra. São apenas dois andamentos originalmente concebidos como terceiro e quatro andamentos (respectivamente um Adagio e um Scherzo) de um Divertimento dividido em 5 partes; os restantes andamentos, Sciarrino nunca os escreveu. No dito Adagio, temos uma espécie de forma ternária (A-B-A): nas partes A, intercalam-se glissandos ascendentes e descendentes, nas cordas, em harmónicos, e passagens furiosas em tutti; a parte B é simultaneamente agitada (muita actividade) e suave (quase no limiar de audibilidade). No dito Scherzo – com a indicação Veloce – temos uma estrutura mais episódica, em sucessivos momentos contrastantes separados por silêncios.

    O título da obra remete para o universo dos divertimentos de Mozart e, em geral, para toda uma tradição de peças relativamente ligeiras e acessíveis. É a nota de humor que Sciarrino hoje nos deixa: um divertimento (para sempre?) incompleto; uma peça que começa no terceiro andamento (!); e uma música em que as referências clássicas (divertimento, adagio, scherzo) nem sempre se parecem materializar de forma muita óbvia.

     


    Daniel Moreira, 2017