Deux portraits imaginaires

Pedro Amaral, Lisboa, 30 de Janeiro de 1972

[2013/2017; c.15min.]

Encomenda da Casa da Música

Estreia mundial: 12 de Maio de 2013 na Casa da Música; Remix Ensemble Casa da Música; Direcção musical: Enno Poppe 

Estreia da nova versão: 16 de Maio de 2017 na Casa da Música; Remix Ensemble Casa da Música; Direcção musical: Pedro Neves 

 

  • Deux portraits imaginaires é uma peça “programática”. Na sua base está um diálogo entre duas personagens, sendo que a música, puramente instrumental, procura pintar o retrato de cada uma delas, da sua personalidade profunda e do seu estado psicológico no momento em que dialoga com a outra.

    As personagens são duplamente imaginadas. A primeira delas é Fausto, na leitura que dele nos deixou Fernando Pessoa na sua obra inacabada Fausto, Tragédia Subjectiva; a segunda é Maria – não Margarida, como em Goethe –, que representa a figura feminina, o amor impossível. Mas Pessoa construiu o seu Fausto, em parte, à sua própria imagem, o que me incitou a emprestar à personagem aspectos da personalidade do próprio poeta; e a visão que aqui deixo de Maria, na construção do diálogo imaginário, mistura personagens femininas diversas que atravessam a escrita pessoana e a vida íntima do escritor.

    Quando a peça começa, Fausto está sentado ao cravo a ler uma página de Froberger, o grande cravista barroco que, em pleno século XVII, desenvolveu e estabilizou, formalmente, a Suite para teclas. Froberger foi um dos primeiros e mais notáveis compositores de música programática, e algumas das suas obras são extraordinárias deambulações pelo fio do pensamento, da introspecção. A página que Fausto lê, sentado ao cravo, é a Allemande da vigésima Suite, em Ré maior, intitulada (em francês) Méditation sur ma mort future. É essa peça que ouvimos, ao cravo, no início destes Deux portraits, em confronto com os pensamentos de Fausto, representados nos outros instrumentos. E é neste ambiente que aparece Maria, numa exuberância feérica que, por momentos, arranca Fausto às suas sombrias meditações.

    A partir da chegada de Maria, a peça toma a forma de um diálogo, onde as palavras estão implícitas nas linhas de determinados instrumentos. Infelizmente, o amor de Maria não salva Fausto, pregado “na cruz ígnea de [si] mesmo”, na sua lucidez paralisante, na sua incapacidade de amar sem se ver amar, de sentir sem pensar o sentimento (é Alberto Caeiro, o mestre, quem constata: “Amar é a eterna inocência, / E toda a inocência é não pensar...”).

    Apesar de toda a exuberância amorosa de Maria, a peça termina com um inevitável Lamento, e as personagens ficam, no fim, tão sós como começaram.

     


    Pedro Amaral, 2013

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