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  • 1. Abertura

    2. Mote

    3. Nocturno

    4. O pobre e o rico

    5. Coral

    6. Cá neste escuro caos de confusão…

     

    É naturalmente de Camões (1524-1580) que vem o título desta peça, mais precisamente da muito conhecida redondilha intitulada Ao Desconcerto do Mundo:

     

    Os bons vi sempre passar

    No mundo graves tormentos;

    E para mais me espantar,

    Os maus vi sempre nadar

    Em mar de contentamentos.

    Cuidando alcançar assim

    O bem tão mal ordenado,

    Fui mau, mas fui castigado.

    Assim que, só para mim,

    Anda o mundo concertado.

     

    Este poema é estranhamente similar – no conteúdo e mesmo na métrica (igualmente heptassilábica) – a um outro, escrito umas décadas antes por Garcia de Resende (1470-1536):

     

    Vimos os bons descaídos,

    e os maus mui levantados,

    virtuosos desvalidos,

    os sem virtudes cabidos

    por meios falsificados,

    a prudência escondida,

    a vergonha submetida,

    o mentir mui disfarçado,

    o saber desestimado

    a falsidade crescida.

     

     

    Ambos os poemas são musicados nesta peça. O de Camões é cantado pelo Coro I, no quinto andamento (a obra no total tem seis); o de Garcia de Resende aparece no segundo andamento, alternadamente cantado pelo Coro I e sussurrado pelo Coro II.

    No sexto (e último) andamento, é musicado um outro poema de Camões: Cá Nesta Babilónia,um soneto que igualmente descreve um mundo – um escuro caos de confusão – tomado pelo mal e pela corrupção, pela cobiça e pela vileza (abaixo encontra-se apenas a parte do poema utilizada na música):

     

    Cá nesta Babilónia, donde mana

    Matéria a quanto mal o mundo cria;

    Cá onde o puro Amor não tem valia,

    Que a Mãe, que manda mais, tudo profana;

     

    Cá, onde o mal se afina, e o bem se dana

    E pode mais que a honra a tirania;

    Cá, onde a errada e cega Monarquia

    Cuida que um nome vão a desengana;

     

    Cá, neste labirinto, onde a nobreza

    Com esforço e saber pedindo vão

    Às portas da cobiça e da vileza.

    Cá, neste escuro caos de confusão.

     

    Além destas fontes eruditas, há também textos – quadras – de origem popular, que igualmente tocam na temática do desconcerto do mundo. Um deles (musicado no quarto andamento, em que ouvimos também instrumentos tradicionais portugueses e melodias folclóricas) fala do contraste entre ricos e pobres e da intolerância e despeito mostrados pelos primeiros em relação aos segundos:

     

    O pobre pediu ao rico

    um bocadinho de pão

    o rico lhe respondeu

    vai trabalhar mandrião.

     

    Um outro (que aparece também no quarto andamento) mostra-nos o pobre lamentando a sua miserável condição:

     

    Minha mãe, minha mãezinha,

    Para quem trabalho eu?

    Trabalho, mato o meu corpo,

    Não tenho nada de meu!

     

    Outros poemas populares (combinados, no sexto andamento, com o soneto de Camões) falam-nos das consequências mais trágicas e ameaçadoras a que pode conduzir o desconcerto do mundo – a guerra:

     

    Vejo mar, não vejo terra,

    Vejo espadas a luzir,

    Vejo o meu amor na guerra

    E não lhe posso acudir.

     

    Há ainda dois andamentos exclusivamente instrumentais: um deles (o primeiro) serve de abertura; o outro (o terceiro), de interlúdio. A peça no seu todo é, então, uma espécie de cantata: um conjunto de andamentos maioritariamente vocais que estão ligados, não por um sentido narrativo, mas por explorarem, sob diferentes perspectivas, uma temática comum. Essa temática, claro, não é nova (basta ver o quão antigos são os poemas de Resende e Camões), mas tem evidentes ecos neste mundo crescentemente caótico, confuso e incerto – desconcertado – em que, em 2016, nos encontramos.

    Interagem nesta peça, então, três grupos, numa mistura deliberadamente heterogénea: (1) um ensemble instrumental de músicos pro­fissionais, especializados em música contemporânea (o Remix Ensemble); (2) um primeiro coro que, embora amador, integra nas suas fileiras alguns músicos profissionais e tem mesmo no seu repertório alguma música do século XX (o Coral de Letras da Universidade do Porto); (3) um segundo coro em que praticamente ninguém lê música e que é essencialmente constituído por pessoas de meios sociais mais desfavorecidos (Orquestra Som da Rua) ou frequentadores de um centro comunitário (Grupo Coral “Cor da Voz”, da Santa Casa da Misericórdia da Maia) – neste terceiro grupo, os membros da Orquestra Som da Rua tocam também vários instrumentos de percussão.

    Note-se que esta divisão em três níveis distintos de treino e experiência musical não significa que o primeiro grupo (o Remix) seja sempre o mais importante, ou que o terceiro (Som da Rua e Cor da Voz) tenha sempre uma função secundária. Aliás, nas partes vocais (que preenchem mais de metade da peça) são os coros que estão em primeiro plano, tendendo o Remix a ficar num plano mais recuado, acompanhando as vozes.

    Apesar disso, a peça não tenta disfarçar as diferenças entre os vários grupos. Ao Coro I, por exemplo, cabe música mais complexa e elaborada do que ao Coro II, que tem música mais simples, e é o ensemble profissional que tem, de todos, a escrita mais virtuosística. Na verdade, os três grupos podem ser vistos como uma espécie de microcosmos da sociedade no seu todo, com as suas diferentes classes sociais – das privilegiadas às desfavorecidas, passando pela “classe média”. As forças envolvidas na peça reflectem também, desta forma, as profundas desigualdades que caracterizam as nossas (desconcertadas) sociedades. 

     


    Daniel Moreira, 2016 

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