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  • 1. Nuages gris –

    2. Unstern!

     

    Heinz Holliger é uma das personalidades mais significativas e fascinantes da música de hoje. Oboísta, maestro e compositor reconhecido, tem mantido em cada um destes domínios uma actividade de primeiríssimo plano. Desde muito cedo construiu uma carreira de sucesso, tornando-se um dos mais reputados intérpretes em todo o mundo e sendo o dedicatário natural de algumas obras emblemáticas da música contemporânea para oboé (de Berio, Ligeti, Stockhausen, Ferneyhough, entre outros). A sua carreira como maestro e pedagogo foi-se tornando também progressivamente mais intensa e reconhecida. O mesmo sucedeu com a composição, que durante muitos anos permanecera na sombra do seu trabalho como solista. No entanto a partir dos anos 80 foi ganhando notoriedade e consistência, em grande parte devido aos inúmeros prémios e distinções que conquistou. A sua obra é significativa, cobrindo praticamente todos os géneros.

    Foi Artista em Residência na Casa da Música no ano passado. Aí tivemos oportunidade de assistir à interpretação de diversas obras suas, de entre as mais significativas, tanto pelo Remix Ensemble como pela Orquestra Sinfónica.

     

    Nuages gris e Unstern! são duas peças breves para piano, compostas por Liszt na fase final da sua vida. São peças despojadas e ascéticas, sem artifícios ou maquilhagens. Na crueza e nudez da sua escrita elas assumem os riscos da inquietação e da procura, anunciando alguns desenvolvimentos futuros da linguagem musical. Virão, em boa parte, a ser concretizados pela música francesa, mais notavelmente por Debussy.

    A rápida exploração e esgotamento do “total cromático”, a insistência na escala de tons inteiros, a abundante utilização de acordes aumentados, o desvanecimento dos eixos tonais, uma trajectória aberta, uma sonoridade difusa e nebulosa, são algumas notas que conferem a esta música um carácter único no seu tempo.

    Não deixa de ser curioso que diversos dados da escrita sejam comuns às duas peças, quer ao nível dos motivos condutores, quer da particularidade dos desenhos, texturas ou dados harmónicos, ou da evidente incerteza e nebulosidade das harmonias ou do destino das frases e dos movimentos. A tonalidade vai ficando mais longe.

    Tudo isto parecem boas razões para que um compositor actual, Heinz Holliger, se sinta sugestionado por estas escritas. Isso corresponde aliás a uma orientação de parte do seu trabalho mais recente, voltado para a orquestração de algumas obras do passado (de Machault, Schubert, Debussy ou Schoenberg, entre outros), algumas delas recentemente apresentadas em concerto nesta casa.

    Mas há um outro dado curioso nesta circunstância. Uma parte significativa da obra de Liszt (e não só em termos quantitativos) é constituída por transcrições para piano, de numerosíssimas obras orquestrais de muitos outros compositores (as Sinfonias de Beethoven, o Requiem de Mozart, o Prelúdio de Tristão e Isolda de Wagner, entre centenas de outras obras!!!). Pois bem, desta vez é a própria música de Liszt a ser objecto do processo inverso: duas das suas obras mais breves para piano são agora objecto de uma transcrição para orquestra!

    Estas duas transcrições realizadas por Holliger são diversas, situando-se um pouco à frente do tradicional conceito de orquestração. Em Unstern!a escrita orquestral segue de bastante perto a partitura para piano, ampliando e sublinhando notas e acordes, nomeadamente nos registos extremos, e mais notoriamente no grave – onde as cordas, os sopros e sobretudo as percussões tornam aquela elementar e “cruíssima” polifonia num movimento impressivo e poderoso. Mas em Nuages gris o grau de invenção orquestral é maior. A perspectiva é de algum alargamento a partir da simplicidade desconcertante da escrita pianística. Uma espécie de micropolifonia (lembrando o mestre Ligeti) vai deixando no ar, muito subtilmente, breves notas e ressonâncias, as quais vão criando pequenas manchas sonoras que o original não mostrava – como se nascessem sombras ou ressonâncias, a partir do pedal do piano. O carácter é o mesmo, mas a orquestração acrescenta algo mais. Na segunda parte da peça esta recriação é ainda maior, com a orquestra a dar uma dimensão quase expressionista a esta estranha e profética obra de Liszt. Originalíssimo é o desfecho, fundindo a subida cromática para os agudos com os dois acordes finais, abertos e inconclusivos.

     


    Fernando C. Lapa, 2017

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