Ebe und anders

Pierluigi Billone, 1960

[2014; c.25min.]

  • Além de Lachenmann, estudou também com Salvatore Sciarrino — para muitos o maior compositor italiano vivo. Trabalhou, assim, com dois dos grandes mestres contemporâneos do som, dois dos compositores que mais — e melhor — têm explorado novos territórios sonoros e, em particular, novas formas de tocar os instrumentos tradicionais. Não é de admirar, por isso, que partilhe com os seus mestres esse interesse em explorar novas possibilidades tímbricas. A isso mesmo se refere Laurent Feneyrou (em http://brahms.ircam.fr/pierluigi-billone):

     

    “Dos seus mestres, Billone adquiriu uma atenção aos sons, ao mais pequeno dos seus estremecimentos, aos excessos das suas distorções, ao silêncio que os atravessa e à sua energia. Mas a presença dessas figuras tutelares poderia impedir-nos de apreender a originalidade musical própria de Pierluigi Billone. Pois Billone estudou também, como autodidacta, repertórios menos balizados pela nossa modernidade: músicas solistas e rituais de civilizações extra-europeias, o free jazz, o rock clássico, a canção…”

     

    Composta em 2014, como resultado de uma encomenda do próprio Klangforum Wien (e do Ensemble Ascolta), a obra que hoje ouvimos é plenamente representativa dessa abordagem. Desde logo, os 7 instrumentos para que é escrita — trompete, trombone, percussão (2 instrumentistas), guitarra eléctrica, piano e violoncelo — são geralmente explorados de forma pouco convencional. Por exemplo, predominam no violoncelo sons extremamente agudos, quando associamos mais a esse instrumento sons graves; além disso, em vez do som quente e “humano” que nos é mais familiar, as sonoridades do violoncelo nesta peça são predominantemente penetrantes ou até “distorcidas”. Ao mesmo tempo, citando Feneyrou, é também notória a referência aos “repertórios menos balizados pela nossa modernidade”, em especial o free jazz, sobretudo a partir do meio da peça, nas partes de trompete e trombone (quando se tornam mais virtuosísticas e selvagens).

    De resto, o trompete e o trombone são os dois solistas principais, como reconhece o próprio compositor numa nota de programa, em que acrescenta que esses dois instrumentos “criam, juntos, um único instrumento, como frequentemente acontece na minha música de ensemble com solistas”. Na verdade, a peça é dedicada ao trombonista e ao trompetista do Klangforum Wien e foi composta tendo em mente as capacidades desses dois instrumentistas. Isso reflecte-se até no título da peça — “Ebe und anders” — já que o trombonista se chama Andreas Eberle e o trompetista Anders Nyqvist.


    Daniel Moreira, 2015