• 1. Pagodes

    2. La soirée dans Grenade

    3. Jardins sous la pluie

     

    Em 1889 a cidade de Paris foi palco da 10ª Exposição Universal. Uma das marcas do evento, que perdura até aos nossos dias, é a Torre Eiffel inaugurada a 31 de Maio desse ano. O magnífico monumento foi projectado pelo Eng.º Gustavo Eiffel na sequência de um concurso organizado pelo Ministério da Indústria e do Comércio para celebrar o centenário da Revolução Francesa, acontecimento que serviu de tema principal da exposição.

    Claude Debussy ficou particularmente fascinado com a recriação de uma aldeia da ilha de Java, a principal ilha da Indonésia, que fazia parte do pavilhão holandês. O Kampong (palavra javanesa para designar aldeia) construído em Paris pretendia retratar a vida quotidiana dos habitantes daquela ilha, desde as práticas agrícolas até às práticas religiosas, passando pelo entretenimento. E no quotidiano dos habitantes de Java estava muito presente o gamelão, um instrumento musical composto por uma série de metalofones, xilofones, kendang (uma espécie de tambores) e gongos. Debussy ficou, obviamente, fascinado pela sonoridade exótica e mágica daquele instrumento.

    Anos mais tarde, em 1903, depois de terminar a ópera Pelléas et Mélisande, o compositor francês decide escrever um conjunto de três peças para piano a que dá o título de Estampes (Gravuras).Dedicadas ao retratista e director da Academia de la Pallette, Jacques-Émile Blanche, amigo pessoal do compositor, cada uma das três peças – Pagodes, La soirée dans Grenade e Jardins sous la pluie – ilustra na perfeição a preferência e a inclinação de Debussy pela imagética visual e pelos efeitos sonoros exóticos.

    Pagodes evoca o exotismo sonoro do gamelão que Debussy descobriu na Exposição de 1889 através das sobreposições polirrítmicas, da evocação dos gongos no registo grave do teclado e da utilização das escalas pentatónicas.

    Manuel de Falla afirmou, a propósito de La soirée dans Grenade, que, apesar de Debussy não ter utilizado nenhuma melodia espanhola, “toda a peça, mesmo nos seus ínfimos detalhes, transmite a sensação de que estamos em Espanha”. Debussy nunca havia viajado para Espanha mas, de facto, o ritmo lânguido e sensual da habanera, o intervalo de segunda aumentada e a imitação do dedilhar da guitarra transporta-nos de imediato para a Andaluzia.

    A peça Jardins sous la pluie foi inspirada por uma tempestade de Verão que, em Junho de 1903, fez toda a gente excepto Debussy refugiar-se em casa de Jacques-Émile Blanche, de acordo com o relato deste. Debussy retrata musicalmente a chuva através de uma repetição incessante de grupos de quatro semicolcheias. O compositor francês cita, ainda, nesta última peça do tríptico,duas canções infantis: “Nous n’irons plus au bois” e “Do, do, l’enfant do”.

    As Estampes foram estreadas a 9 de Janeiro de 1904 pelo pianista catalão Ricardo Viñes, num concerto da Sociedade Nacional que teve lugar na Sala Érard. Viñes (1875-1943), um dos bons amigos de Claude Debussy, foi um dos pianistas da primeira metade do séc. XX que mais tocou e defendeu a música sua contemporânea.

     


    Ana Maria Liberal, 2017