Fantasia e Sonata em Dó menor, K.475/457

Wolfgang Amadeus Mozart, Salzburgo, 27 de Janeiro de 1756 / Viena, 05 de Dezembro de 1791

[1785/1784; c.23min]

  • - Fantasia K. 475

    Adagio – Allegro – Andantino – Più allegro – Tempo I

    - Sonata K. 457

    1. Molto allegro

    2. Adagio

    3. Allegro assai

     

    Em 1782, Mozart muda-se para Viena depois de se incompatibilizar com o Arcebispo de Salzburgo. Na capital austríaca, o compositor vai produzir uma série de obras-primas em praticamente todos os géneros ao mesmo tempo que atravessa o período mais conturbado da sua vida em termos financeiros.

    A Fantasia e a Sonata em Dó menor, K. 475/457, são duas dessas obras-primas compostas em Viena com sete meses de diferença. Primeiro surgiu a Sonata, em Outubro de 1784; depois a Fantasia, a 20 de Maio de 1785. As duas obras são dedicadas a Madame Therèse von Trattner, aluna dilecta de Mozart e esposa do seu senhorio que era, também, um importante editor em Viena. Em Dezembro de 1785, a principal editora de Mozart, a Artaria, publicou, com o número de Op. XI, a Fantasia e Sonata para Forte-Piano.

     

    A Sonata em Dó menor K. 457 é a primeira sonata para piano que Mozart compõe em Viena. A anterior, em Si bemol maior K. 333, havia sido escrita seis anos antes, em 1778, em Salzburgo. A Sonata K. 457 abre de forma assertiva e enfática, com as notas do acorde de Dó menor a serem tocadas em uníssono nas duas mãos (a esquerda em oitavas), em movimento ascendente e em forte. A resposta, em piano, soa a uma exclamação de dor. O pianista Paul Badura-Skoda e a sua esposa, a musicóloga Eva Badura-Skoda, consideram o primeiro andamento, Molto allegro, “um grito sustentado de protesto” onde a pergunta/resposta conduz o ouvinte a um nível de “profundidade impossível de ser entendido através das palavras”. O Adagio, em Mi bemol maior,é uma das páginas mais inspiradas de Mozart. Delicado, terno e doce, o segundo andamento destaca-se pela riqueza harmónica e pelos recortes ornamentais que o compositor imprime à linha melódica. O casal Badura-Skoda assinala a imensa semelhança do início do tema do segundo episódio com o início do tema da Sonata op. 13, “Patética”, de Beethoven. Allegro assai é a indicação que consta na primeira edição da Sonata para o terceiro andamento. Todavia, no manuscrito, o compositor escreveu Molto allegro, agitato. E é de facto uma profunda agitação que emana do rondó final. As síncopas, a repetição da mesma nota várias vezes, as pausas, as suspensões soam a gritos de desespero e lamentos angustiados entrecortados por silêncios ensurdecedores.

     

    Na opinião de Paul e Eva Badura-Skoda, a Fantasia em Dó menor K. 475 é “a obra mais significativa para piano” de Mozart. Partilha com a Sonata K. 457 a mesma angústia e o mesmo desespero, expressos no motivo inicial, onde o acorde de Dó menor é tocado em uníssono. Mas aqui os cromatismos em torno da nota sol transmitem uma sensação de “destruição impiedosa”, segundo Paul Badura-Skoda. A Fantasia K. 475 é formada por cinco secções: Adagio – Allegro – Andantino – Più allegro – Tempo I, com um retorno ao tema inicial na quinta, todas de diferentes tonalidades que se encadeiam utilizando passagens de transição, cadências breves ou simples inflexões harmónicas. Nesta obra, Mozart leva ao extremo a utilização de contrastes dinâmicos, de acordes dissonantes e de toda a extensão do teclado.

    A Fantasiaparece albergar um triste e sombrio sentimento de dúvida e de interrogação ao mesmo tempo que almeja descarregar um sentimento de culpa esmagador. É uma obra que parece prenunciar o triste fim do seu criador, um dos génios mais fecundos da história da música ocidental.

     


    Ana Maria Liberal, 2017