Farol, para orquestra de jazz e quarteto de cordas

Carlos Azevedo, Vila Real, 1964

[2011]

  • Em 2008, Carlos Azevedo escreveu um quinteto com piano para o Quarteto de Cordas de Matosinhos. Esta experiência acabou por contribuir para algumas das soluções encontradas na composição de Farol, nomeadamente na criação de alguns momentos em que a sonoridade se aproxima do clássico quinteto com piano. Mas importa antes perceber que respostas encontrou Carlos Azevedo para uma convincente integração do quarteto de cordas no conjunto orquestral. E a primeira dessas respostas é-nos dada logo nos primeiros compassos da obra, em que o quarteto é transportado de imediato para o ambiente da big band com o papel rítmico que lhe é destinado, juntando-se a contrabaixo e bateria numa base que vai suportar todo o desenvolvimento da obra até às secções de improvisação. Esta base rítmica, construída por acordes curtos e incisivos, acrescenta grande intensidade dramática à melodia desenvolvida nos saxofones: conta inicialmente apenas com bateria, contrabaixo e 3 membros do quarteto, junta-se depois o violino em falta e logo o piano, e pouco depois os metais entram num diálogo com este grupo também em acordes curtos. Sobre isto desenvolve-se um tema principal no saxofone barítono, solitário, do qual se apropria de seguida todo o naipe de saxofones para fazer frente a um acompanhamento que parece acrescentar mais e mais tensão, num constante movimento ascendente sugerido também pelas melodias quase sempre ascendentes. É quando desaparecem todos os sopros que surge a oportunidade para dar outro destaque às cordas, explorando a sonoridade de quinteto com piano referida acima – ainda que mantendo o contrabaixo e a bateria.

    Este tipo de textura não se prolonga demasiado e o quarteto integra novamente a orquestra numa segunda secção da obra, ainda antes dos solos individuais. Aqui os motivos melódicos baseiam-se num gesto descendente de três notas, respondido por um outro gesto mais complexo, numa constante alternância de divisão binária e ternária que culmina no início do solo de guitarra.

    Todas as secções de solos em Farol foram pensadas especificamente para os solistas que as vão tocar: primeiro, o guitarrista André Fernandes; depois, uma “batalha” entre os saxofonistas José Luís Rego e Zé Pedro Coelho; por fim, o saxofonista barítono Rui Teixeira. Só depois de uma secção mais lírica, novamente pelo “quinteto com piano” somado ao contrabaixo e à bateria, é que surge a reexposição do tema de abertura a encerrar a obra num ambiente de mistério.

    Farol é uma homenagem ao Município de Matosinhos e ao seu famoso Farol de Leça.

     


    Fernando Pires de Lima, 2011