• Livro I

    1. Reflets dans l’eau

    2. Hommage à Rameau

    3. Mouvement

    Livro II

    1. Cloches à travers les feuilles

    2. Et la lune descend sur le temple qui fut

    3. Poissons d’or

     

    Claude Debussy herdou de Franz Liszt e da sua escrita pianística a capacidade de pintar paisagens e descrever acções através dos sons. Essa técnica descritiva, através da qual os compositores reproduzem os sons do concreto ou do real, remonta à música vocal do Renascimento, onde se encontram representações do canto dos pássaros, e à música instrumental do Barroco, onde se escutam regularmente os sons de trovoada, da água a correr, as espadas numa batalha, entre tantos outros efeitos. Liszt foi considerado o pai do poema sinfónico, e nesse género descritivo – onde a música é inspirada por um texto, uma imagem ou um acontecimento histórico – é muito comum distinguirem-se as melodias dos locais, resultantes de uma inspiração dramática, e os sons do concreto. Por exemplo, uma melodia que se escuta sobre as ondas do mar ou sobre a água a jorrar de fontes, efeitos esses reproduzidos com desenhos ondulantes no acompanhamento.

    O conhecimento que Debussy tinha dos componentes do som foi primordial para os novos desenvolvimentos neste género do poema musical. A exploração das séries de harmónicos, de escalas e harmonias de diversas origens geográficas, assim como a combinação simultânea de diferentes idiomas musicais, abriu imenso o leque de sonoridades e quase estabeleceu um ponto de ruptura com a tonalidade. Quanto aos efeitos orquestrais com base na repetição dos mesmos motivos em oitavas diferentes do piano, são claramente um recurso lisztiano que Debussy desenvolveu.

    No conjunto de seis peças compiladas em dois trípticos sob o título Images, escrito por Debussy entre 1901 e 1907, temos alguns bons exemplos dessa inovação pianística.

    A primeira peça, Reflets dans l’eau, é a mais conhecida do conjunto e remete-nos desde logo para a tradição pianística de Liszt e a celebérrima Jogos de água em Villa d’Este do compositor húngaro. A peça tem início com a representação de coloridos, ou brilhos, sobre um espelho de água ligeiramente ondulante. Uma melodia nostálgica vai ganhando forma ao mesmo tempo que as águas se tornam mais agitadas, fazendo um percurso que termina num clima sonhador e de grande tranquilidade.

    A segunda peça é uma homenagem ao grande compositor Jean-Philippe Rameau. É muito conhecida a admiração dos compositores franceses da transição para o século XX pelos cravistas do período Barroco, em cujas obras procuraram encontrar a raiz de uma música francesa. Satie foi um primeiro defensor desta ideia e, além de Debussy, também Ravel prestou uma conhecida homenagem a Couperin. Uma melodia arcaica num tempo lento e ritmos aproximados a uma sarabanda remetem-nos para o universo da Música Antiga numa peça de grande originalidade harmónica e um carácter todo ele improvisado.

    A peça que encerra o primeiro tríptico de Images não tem título – é apenas apelidada de “mouvement”. O ritmo e a figuração repetitiva sugerem uma tocata que se desenvolve com recurso a efeitos orquestrais pela forma como todo o teclado é explorado, sugerindo mesmo a presença de instrumentos como as trompas ou outros metais. É uma peça de grande virtuosismo e onde o detalhe polifónico requer uma técnica infalível.

    O segundo livro tem início com Cloches à travers les feuilles. A escrita é feita numa textura tripla como se três mãos tocassem simultaneamente. A variedade de dinâmicas atribuída a cada parte e a sua independência rítmica resulta num colorido muito especial que é acentuado pela suspensão da harmonia num ostinato na escala de tons inteiros. O ouvinte consegue imaginar os raios de luz por entre as folhas do arvoredo e escutar os sinos que ecoam na suave brisa.

    A entrada de Et la lune descend sur le temple qui fut no registo agudo faz lembrar um raio de luar, como se o som viesse de cima. E logo depois entram os registos graves simbolizando as ruínas de um templo abandonado. E serão as harmonias ‘agudas’ que banharão a música e dela tomarão conta num ambiente sonhador de nocturno.

    O uso de três níveis de texturas em Poissons d’or é diferente. As duas inferiores servem de acompanhamento à melodia, como se fosse uma peça para piano e clarinete (como terá sugerido Debussy a Dumesnil). A inspiração para esta peça em particular surgiu de um vaso chinês de porcelana onde se via pintado um peixe­ dourado e os seus reflexos na água.

     


    Rui Pereira, 2017