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  • Khamma, escrita em 1911-1912, é a obra com que Debussy se iniciou na escrita para bailado.

    A peça surgiu na sequência de uma encomenda da dançarina Maud Allan, inglesa de origem sul-africana (“la girl anglaise”, como lhe chamou), que lhe pedira uma obra alusiva ao Egipto. A aceitação desta encomenda, justificada principalmente por razões financeiras, lançou Debussy num trabalho que não o entusiasmava e que, talvez por isso, esteve longe de ser rápido ou linear, tal como a história da difusão da obra. Khamma teve a sua gestação interrompida no ano seguinte em favor do trabalho para a música incidental O Martírio de São Sebastião (este sim, um trabalho a que Debussy se entregou com afinco). Quanto à orquestração, o trabalho meramente esboçado de Debussy (que orquestrou apenas os compassos introdutórios) foi continuado por Charles Koechlin a partir da redução para piano, sob a supervisão do compositor, até que a partitura orquestral tomou a sua forma completa em 1913. A música de Khamma seria ouvida pela primeira vez em 1924, já depois da morte de Debussy; mas mais ainda: a estreia da partitura com componente de bailado (de acordo com a intenção original, portanto) ocorreria apenas em 1947, sem que se seguisse uma trajectória de êxito que lhe garantisse presença regular em salas de espectáculos. Entretanto ofuscado por outras peças, entre as quais uma obra posterior neste domínio (Jeux, acabada em 1913), Khamma permanece, com ou sem a componente de palco associada, uma das obras mais raras da produção debussiana, injustamente negligenciada.

    A escolha de integrar piano na orquestra foi do próprio Debussy. Note-se que a escrita para piano é invulgar na medida em que há uma predominância notória do registo grave, característica ecoada de certo modo na escrita orquestral, em que as cores não são tão claras, quentes e brilhantes como nas mais conhecidas páginas orquestrais do compositor. Há também uma mobilidade rítmica e formal mais próxima do que será explorado em Jeux. Por outro lado, também em termos harmónicos a peça traz um lado experimental – explicando assim a contradição do compositor que, aparentemente tão desinteressado da obra, mencionaria ao editor a propósito dela “as mais recentes descobertas da química harmónica”.

    A narrativa desta “lenda dançada” (expressão que serve de subtítulo à obra) remonta ao Egipto Antigo. A cidade da jovem e bela Khamma está sob ameaça de invasão. No intuito de dissuadir os invasores, Khamma dança em honra do deus Amon-Rá. Assim que consegue garantir que a sua cidade está salva, Khamma cai morta e o seu sacrifício é abençoado pelo sumo-sacerdote. As três danças de Khamma formam o epicentro da obra: primeiro uma dança lenta, como que uma sarabanda; seguindo-se uma dança contrastante em tempo mais animado; e por fim uma dança mais graciosa e terna que evolui pouco a pouco para um carácter cada vez mais frenético, onde sobressaem acordes dissonantes no naipe de metais. Uma entrada do tantã marca o momento fatal de Khamma, ao qual se segue um epílogo em que sobressaem ecos de fanfarras de trompetes. Nas páginas inspiradas desta admirável obra, poder-se á apreciar a escrita delicada para o naipe de madeiras e, muito, a subtileza com que se gere o matizado das combinações instrumentais.

     


    Pedro Almeida, 2016 

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