Lamentações do Profeta Jeremias

Fernando de Almeida ,

[séc. XVII]

  • As Lamentações do Profeta Jeremias foram desde bastante cedo introduzidas pela Igreja Católica nos ofícios da Semana Santa, para serem cantadas no início das matinas, no chamado primeiro nocturno, mas as primeiras colecções impressas polifónicas datam da segunda metade do século XVI. O Ofício de Trevas é, de facto, um dos mais espectaculares da antiga liturgia católica. Desenvolvia-se durante o Tríduo Pascal ao longo das horas canónicas de matinas e laudes, isto é, no período de vigília que se prolonga, mais ou menos, entre as quatro e meia e as nove da manhã. A música era apenas um elemento mais, dentro de um conjunto de impressionantes experiências sensoriais. Nesta época, a magnificência e o esplendor do rito católico eram inseparáveis de dois elementos: a propriedade e a compostura litúrgicas e a representação do poder régio. Estes dois elementos relacionam-se directamente com todo o repertório polifónico sacro conservado em arquivos e bibliotecas da Península Ibérica e, obviamente, em particular, com as Lamentações que fazem parte deste programa. 

    É, aliás, um tópico da historiografia considerar que esse repertório constitui o principal contributo de Portugal para a história da música. Os nomes de Manuel Mendes, Duarte Lobo, Manuel Cardoso ou Filipe de Magalhães, entre muitos outros, são a prova disso. Fernando de Almeida, menos conhecido do que os anteriores, também faz parte deste grupo. Conforme sintetizam João Vaz e João Pedro d’Alvarenga num artigo recente, Almeida nasceu em Lisboa, onde provavelmente chegou a ser discípulo de Duarte Lobo. Tornou-se, ainda em Lisboa, religioso da Ordem de Cristo, onde desempenhou diversos cargos. Em 1659 foi preso, submetido a interrogatório e considerado culpado de ter injuriado o Prior do Convento de Cristo em Tomar. Chegou a fazer parte, como arrependido, de uma procissão de réus durante um auto-de-fé. Morreu em Abril de 1660 no convento tomarense e foi enterrado em vala comum, sem qualquer rito funerário. Como consequência do terramoto de 1755, também não podemos ter contemporaneamente uma ideia exacta do que foi a sua produção musical. Esta Lamentação, por exemplo, conserva-se na biblioteca do Palácio Ducal de Vila Viçosa: D. João V, depois de ter escutado em Tomar composições de Fernando de Almeida, ordenou que fossem copiadas para seu uso, em Abril de 1714. Anos depois foi realizada uma segunda cópia destinada à Capela Real do mencionado Palácio de Vila Viçosa.

    No comentário estilístico desta peça, deve ser tomado em consideração que Manuel Soares, organista da Capela Real em Lisboa, chegou a fazer modificações nalgumas secções das obras copiadas na fonte conservada em Vila Viçosa. No entanto, feita esta ressalva, a composição de Fernando de Almeida tem sido interpretada como um exemplo de combinação do estilo antigo e da “modernidade” da qual D. João IV foi apologista na sua Defensa de la música moderna, publicada em meados do século XVII e dedicada a João Lourenço Rebelo, compositor contemporâneo de Almeida. Esse ensaio, escrito originalmente em castelhano, constitui uma fonte de referência para conhecer o estado da composição polifónica sacra na Península Ibérica. Um dos elementos que caracterizam a modernidade nessa altura, segundo o autor, era a adequação expressiva da música ao texto, perseguindo um impacto emocional mais intenso, mas sempre com o objectivo de aumentar a devoção. Contrastes de textura (reforçados pelo uso dos dois coros ou, por exemplo, mediante contraposição de secções quase declamadas e de secções com longas frases em estilo contrapontístico), mudanças de acordes, dissonâncias e suspensões sucedem-se, sempre organizados tomando como fundamento o texto verbal.

     


    Teresa Cascudo, 2017