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  • A composição da ópera O Rouxinol acompanhou a transição entre dois momentos bem distintos da vida artística de Stravinski. O seu primeiro acto foi escrito entre 1908 e 1909, no final da fase de aprendizagem como discípulo de Rimski-Korsakoff. Ao retomar a partitura em 1914 para concluir os actos II e III, não só o percurso de Stravinski tinha tomado uma nova direcção, como novos eram os caminhos que se abriam às linguagens musicais em virtude do trabalho por si desenvolvido.

    Foi logo em 1909 que o director da célebre companhia Ballets Russos, Sergei Diaghilev, fez o convite a Stravinski para realizar algumas orquestrações para os seus bailados, a que se seguiram as encomendas de três obras fundamentais especificamente criadas para a companhia: O Pássaro de FogoPetruchka e A Sagração da Primavera. A ópera foi posta de lado durante esses anos e, quando a retomou, o compositor não era já o mesmo. Contudo, ao transformar a obra numa peça instrumental mais compacta, os contrastes estilísticos esbatem-se – não é por acaso que Stravinski recorre preferencialmente a excertos dos dois últimos actos, compostos mais recentemente e marcados pela linguagem mais moderna. O poema sinfónico serviu um bailado produzido por Diaghilev, no entanto o compositor afirmou mais tarde que o contexto ideal para a performance seria o palco de concerto, onde a música não dependesse dos vários elementos que envolvem uma encenação. É, assim, no contexto idealizado por Stravinski que podemos hoje ouvir o poema sinfónico Le Chant du Rossignol.

    O enredo da ópera serve igualmente de programa ao poema sinfónico, e é baseado no conto O Rouxinol do escritor dinamarquês Hans Christian Andersen, publicado em 1843. Conta a história de um Imperador chinês que vivia num esplêndido palácio rodeado por jardins luxuriantes que se estendiam largamente até à floresta, onde grandes árvores pendiam sobre as águas do mar. Aí vivia o Rouxinol, que todos os dias encantava o pobre Pescador com o seu belíssimo canto. Todos os visitantes gabavam os dotes do Rouxinol acima de todas as maravilhas do palácio e da cidade, o que surpreendeu o Imperador e o fez ordenar uma busca pelo pássaro, que desejava ouvir na corte. É a festa na corte que dá início ao poema sinfónico de Stravinski, com grande animação que fica suspensa para se ouvir o canto doce e ornamentado do Rouxinol, representado pela flauta em figurações rápidas com o discreto acompanhamento da orquestra.

    Segue-se a “Marcha Chinesa”, representando a entrada do Imperador, marcada pelo ritmo solene e percutido das cordas enquanto surgem melodias baseadas na escala pentatónica, que imediatamente se associa às sonoridades da música chinesa. Estes motivos melódicos são desenvolvidos por toda a orquestra e cessam apenas para dar lugar ao momento em que brilha o Rouxinol: uma cadência para a flauta solo intitulada “Canto do Rouxinol”, canto esse que se prolonga em diálogo com o violino e já com o acompanhamento da orquestra.

    O regresso ao tempo rápido e aos motivos da introdução fazem a ponte para um momento chave da narrativa: a chegada à corte de um rouxinol mecânico, incrustado de diamantes, rubis e safiras, oferecido pelo Imperador do Japão. Ouve-se então o canto automatizado deste exemplar tão mais vistoso, representado pelo oboé: a sua melodia é repetitiva e a orquestra assinala o ruído da mecânica em funcionamento. A corte deixa-se conquistar pelo brilho do novo pássaro e aplaude a previsibilidade com que ele repete vezes sem conta os mesmos motivos, sem qualquer laivo de imaginação. E quando o Imperador pretende ouvir um dueto, o cinzento rouxinol já se escapou para a floresta. À fúria do Imperador segue-se a melancólica canção do Pescador, entoada pelo trompete solo e simbolizando o regresso do Rouxinol à floresta.

    O ambiente que se segue é pesado: os anos passaram e o Imperador jaz doente, enquanto a Morte o cerca ávida de o levar consigo. Ensaia-se uma marcha fúnebre nos fagotes, trombones e tuba, e ainda uma breve aparição do rouxinol mecânico no oboé, sem consequência. A Morte apenas é travada pelo regresso do verdadeiro Rouxinol, que devolve algum brilho ao palácio com o seu canto entoado na flauta. Fascinada, suplica por mais música e cede às exigências do pássaro, deixando viver o Imperador. O final sugere ainda o escuro suspiro da morte, que todos na corte julgavam ter dominado o Imperador, mas este surge miraculosamente recuperado. O trompete entoa novamente a canção do Pescador, simbolizando a liberdade do Rouxinol que agora viria alegrar o Imperador apenas quando desejasse.


    Fernando Pires de Lima, 2012

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