Llaços, contradanças e descantes

Eurico Carrapatoso, Mirandela, 15 de Fevereiro de 1962

[2016; c.13min]

  • 1. Searas

    2. Rabatida 

    3. Ninho

    4. Encomendação

    5. Malhadas 

     

    Não esqueço mais a cerimónia de inauguração do Centro Cultural de Palaçoulo, ali ao pé de Miranda do Douro. Em boa hora fui convidado a estar presente.

    Não me perguntem porquê, mas estive emocionado desde o primeiro minuto. Estremeci quando os Pauliteiros fizeram o assalto ao castelo, com o estrépito dos paus e dos pés a assentar com força no chão. Estava frio. E começou a nevar com abundância.

    Mas o principal estava para vir: eis senão quando chegam à cena os Pauliteiricos de Palaçoulo. Lá estavam os miúdos, alguns deles ruivos e sardentos pela gota de sangue suevo que ainda lhes corre nas veias, mirandeses de gema nados e criados naquele planalto mítico. Lá estavam os miúdos, assim iniciados à nobreza dos antigos rituais da dança pírrica, tão lindos e seguros de si, agarrando a estafeta cultural maravilhosa que, daquele modo, recebiam de seus progenitores. Lá estavam com os seus paulitos mais pequenos para não magoarem seus dedinhos engaranhados do frio que fazia. Lá estava um ruivinho e sardento com seu pai atrás a soprar no fole da pequenina gaita-de-foles, que roncava, afinal, tanto como as outras, naquele arranque do seu bordão que tem tanto de grotesco quanto de épico, mais o basqueiro em que refulgiu a sua sonoridade bronzina, com apenas duas dinâmicas disponíveis: ou forte, ou fortissimo, a ecoar naquele branco planalto mirandês, alvinho de neve.

    Nesse momento fui-me abaixo de emoção, confesso, e jurei a mim próprio que toda a minha vida continuaria a honrar, com a minha música, a memória do meu povo, as minhas origens, a minha identidade, os llaços do meu afecto, e que levantaria bem alto o pendão do meu orgulho de ser transmontano; e, virando-me para leste, de onde me chegavam os fétidos ares d’além Pirenéus, amaldiçoei a corja dos vaidositos burgueses e mimados que, de modas urbanas, vociferam ainda hoje o caminho da estética e o fim da história da música pelo trágico diapasão do eixo Paris-Darmstadt, cristalizado no inominável instituto da música-poder, continuando a vomitar, como que amaldiçoados por um anátema, uma arte trágica que se arrasta, entubada, no circuito dos concertos de música contemporânea, mantida em estado vegetativo pelos programadores culturais com desfibriladores em riste. Temática transilvana.

    Perante aqueles Pauliteiricos de Palaçoulo jurei a mim próprio, naquele dia frio e limpo, esfregar na cara a esses caramelos um manifesto que lhes berra nos seguintes termos: “Ide dar sangue! Ide cagar longe!”, pardonnez mon français.

    E termino esta nota na minha amada lléngua mirandesa: L aire de l campo fai-mos sentir bien.

     


    Ourico Carrapatoso, desassiête de Novembro de dous mil i desassiête