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  • Entrevistador: Há momentos de loucura na sua vida?

    Holliger: A nível médico, não. Contudo, quando componho, não consigo descrever porque é que fiz o que fiz. Ocorre-me que a isso se possa chamar loucura. Temos de aceitar que 90% da criatividade vem do inconsciente. Quando eu toco ou ouço uma peça pela primeira vez, por vezes assusto-me face a esse abismo que se abre. E então fico com medo de mim próprio.

    Entrevistador: Por exemplo?

    Holliger: Lunea, que acabámos de estrear com o Collegium Novum. É uma música bastante destrutiva, que me faz medo.

    Lunea é uma das obras mais recentes de Holliger, composta entre 2010 e 2013. Trata-se de um ciclo de 23 pequenas canções para barítono e ensembleinstrumental sobre textos de Nikolaus Lenau, um poeta alemão do século XIX já musicado por Schumann.

    Ao contrário de Schumann, que utilizou sonetos de Lenau, Holliger recorre a pequenas notas soltas, quase em jeito de diário, que o poeta escreveu nos últimos anos da sua vida. (A obra tem por subtítulo, aliás, 23 frases de Nikolaus Lenau.) Na sua extrema concisão, as notas assemelham-se a flashes de pensamento, que parecem provir directamente do inconsciente. Como refere o próprio Holliger na entrevista acima citada, os textos “são por vezes simples gritos, breves explosões dramáticas que se desfazem em pedaços”. Tal como noutras obras de Lenau, o tom dominante é de profunda angústia e melancolia existencial.

    Na verdade, o poeta teve uma existência particularmente infeliz, marcada por múltiplos desgostos amorosos e um período de emigração mal sucedida nos Estados Unidos (onde parece ter descoberto que os homens eram tão corruptos quanto o lamentava serem na Europa). Depois de um ataque cardíaco, em 1844, de que nunca recuperou totalmente, começou aos poucos a enlouquecer, passando os anos de 1844 a 1847 num hospital psiquiátrico em Winnenthal. Terminaria os seus dias em Viena, em 1850, sozinho e demente, completamente à margem da sociedade.

    Foi também esta biografia que fascinou Holliger, que frequentemente colhe inspiração nas obras – e na vida – de poetas que viveram no limiar da loucura, exilados da sociedade do seu tempo, perseguidos por visões de delírio e morte. Por exemplo, em Scardanelli-Zyklus– talvez a sua composição mais importante – Holliger põe em música poemas da segunda metade da vida de Friedrich Hölderlin, em que o poeta, enlouquecido, se fechou num quarto de uma torre, aí permanecendo durante 36 anos, completamente isolado da sociedade.

    Voltando a Lunea, o propósito confessado de Holliger foi escrever “música que soasse como uma febre”. E há, de facto, uma violência selvagem em muitos dos fragmentos que compõem a obra, como no terceiro, em que o barítono, acompanhado por ferozes sonoridades no ensemble, predominantemente agudas, nos canta: “Foi a serpente celeste, o relâmpago, que o mordeu de morte”. Mas a obra é sobretudo dominada por sonoridades mais graves e sombrias, com destaque para as notas mais profundas do clarinete contrabaixo, de alguma percussão, da harpa e do piano. De resto, a música, sempre muito expressiva, apresenta uma grande variedade de texturas, das mais vanguardistas (como o fragmento XIX, inteiramente integrado por ruídos, sem qualquer nota musical convencional) a outras mais ligadas à tradição (como o fragmento IV, que evoca uma marcha fúnebre, ou o VI, uma valsa triste).

    Ainda que Holliger se furte, em entrevistas, a esclarecer o significado do título – Lunea –, há dois sentidos que facilmente se adivinham: por um lado, Lunea é uma permutação da ordem das letras do nome do poeta: Lenau; por outro, o título evoca a Lua, descrita, no fragmento XXI, como “uma sepultura fulgente, flutuante”.

     


    Daniel Moreira, 2016 

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