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“Esta é uma peça curta num único andamento, com cerca de 10 minutos de duração. Tentei aqui, pela primeira vez, trabalhar com um tema musical, o que poderíamos atribuir a um estilo “retro”: o estilo, por exemplo, do Romantismo tardio ou do Expressionismo inicial. Usando este material, contudo, tentei escrever uma peça do nosso tempo. Espero tê-lo conseguido.”
Music for 12 – uma obra composta em 1986 para o ensemble de solistas do Teatro Bolshoi – começa com o violino a tocar, sozinho, uma melodia de cinco notas, de carácter lírico e expressivo. Essa melodia reaparece constantemente ao longo do andamento, às vezes de forma óbvia – simplesmente tocada noutros instrumentos solistas, como a flauta, a trompa, o trompete ou a celesta –, outras vezes mais subtil. É esse o tema musical recorrente a que Firsova se refere na citação acima e, de facto, se tivermos em conta que a ideia de compor música com base em temas recorrentes praticamente desapareceu da música mais vanguardista a partir da década de 1950, parece haver algo de conservador nesta obra. E é evidente a associação ao Romantismo tardio e Expressionismo inicial, em especial na escrita para as cordas, em que frequentemente sentimos ecos da Noite Transfigurada de Schoenberg. Mas a peça não é uma simples imitação da música do início do século XX: o seu universo sonoro, por exemplo, seria inconcebível numa obra desse período, antes se sentindo a influência da música de Boulez, sobretudo na escrita para harpa e celesta. E se não é igual a Schoenberg, a música também não é igual a Boulez. Há, na verdade, um lado expressivo muito próprio nesta música, um lirismo contido em que reconhecemos a assinatura inconfundível de Firsova.
Daniel Moreira, 2016