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  • 1. Entrada da Academia

       Ubu Rei, Capitão Bordure e os seus apoiantes

    2. Mãe Ubu e os seus Guardas

    3. Pile, Cotice e o urso

    4. O Cavalo Phynanceiro e os Lacaios da Phynança

    5. Pavane de Pissembock e Pissedoux

    6. Canção de embalar os pequenos financeiros que não conseguem dormir

    7. Marcha do embrutecimento

     

    Ubu Roi é um marco do teatro modernista. Escrita por Alfred Jarry, a peça foi apresentada em Paris a 10 de Dezembro de 1896. A récita de estreia foi também a sua última, e causou grande comoção e escândalo no público. A peça satiriza o poder e o sucesso e foi inspirada em tragédias e peças históricas de William Shakespeare. Contudo, as estratégias narrativas são muito distintas. O seu enredo coloca um monarca de perfil marcadamente infantil numa narrativa que desafia a lógica. Essa encenação do exercício do poder é uma paródia ao teatro clássico e renascentista que leva o grotesco ao extremo. Num período em que o realismo era uma estética importante, as características de Ubu Roi prefiguraram o Surrealismo e do Dadaísmo, correntes estéticas que se consolidaram no mundo francófono algumas décadas depois. Assim, uma visão própria do Simbolismo finissecular antecipou alguns dos movimentos artísticos mais militantes e provocadores do século XX, que recorriam ao humor como estratégia de comunicação. Posteriormente, Jarry escreveu outras duas obras com a mesma personagem principal: Ubu Cocu e Ubu Enchaîné.

    O pendor subversivo da peça coloca-a numa posição ideal para ser tratada por um compositor como Bernd Alois Zimmermann. A ruptura com as convenções dramáticas da peça pode ser facilmente traduzida na subversão das convenções musicais. É nessa perspectiva que podemos enquadrar Musique pour les soupers du Roi Ubu. O bailado ocupava um papel importante no entretenimento cortês. Assim, Zimmermann escreveu um ballet noir, dividido em vários quadros, para ser dançado num banquete na corte de Ubu. A obra foi composta entre 1962 e 1966, quando o compositor desenvolvia uma estética baseada em citações musicais. Essa abordagem caricatural ao cânone musical do Ocidente contrastava acentuadamente com as práticas musicais desse período, dominado pelos modelos seriais e pós-seriais associados aos Cursos de Verão de Darmstadt.

    Musique pour les soupers du Roi Ubu (Música para os banquetes do Rei Ubu) foi estreada em concerto na Academia das Artes de Berlim a 31 de Janeiro de 1968 e o bailado apresentado pela primeira vez pela Deutsche Staatsoper a 25 de Abril do mesmo ano. As texturas repetitivas das danças formam um esqueleto que vai sendo preenchido com citações de obras eruditas muito conhecidas, misturadas com trechos de música contemporânea e com passagens de cariz jazzístico. Para intensificar o efeito, foi acrescentado um combo de jazzà orquestra. Zimmermann utiliza excertos do cânone musical europeu para criar um efeito de estranhamento no ouvinte. Assim, passagens de obras muito conhecidas são retiradas do seu contexto, cortadas e sobrepostas de forma a criar uma trama que enfatiza a associação livre de elementos. Paralelamente, Zimmermann cita peças contemporâneas, tornando a obra um mosaico de diversos tempos históricos.

    Musique pour les soupers du Roi Ubu inclui excertos dos Quadros de uma Exposição de Mussorgski, da Sonata op. 31 n.º 3 e da Sinfonia n.º 6 de Beethoven, da Sinfonia Fantástica de Berlioz, do Concerto Brandeburguês n.º 1 de Bach, da Carmen de Bizet, da Marcha militar de Schubert, de dramas musicais de Richard Wagner (Tristão e Isolda, Os Mestres Cantores de Nuremberga e A Valquíria), da Abertura 1812 de Tchaikovski ou da Marcha Radetzky de Johann Strauss. Paralelamente, cita a ópera de Zimmermann Die soldaten, a melodia de cantochão do Dies irae numa versão do organista Joseph Ahrens, a Sinfonia Litúrgica de Honegger, a abertura de Mathis der maler de Hindemith, a Sinfonia em Dó e o concerto Dumbarton Oaks de Stravinski, a Crónica Judaica de Paul Dessau, o Klavierstücke IX de Stockhausen, a Ode an der Westwind de Hans Werner Henze, os Cantos de Libertação de Dallapiccola, a Sinfonia 1947 de Wolfgang Fortner, ou a Música concertante de Boris Blacher. Num período em que a inovação e a criação do novo era o paradigma do modernismo, Zimmermann apresenta uma obra que relaciona organicamente o passado com o presente, enfatizando a variedade e a descontinuidade. 

     


    João Silva, 2017 

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