Concerto para gira-discos e orquestra n.º 2

Gabriel Prokofiev,

[2016; c.23min.]

Encomenda da Casa da Música e Bergen Philharmonic Orchestra

Estreia mundial: 29 de Julho de 2016 na Casa da Música; Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música; Direcção musical: Baldur Brönnimann; Turntables: Mr Switch 

  • 1. Andante misterioso Marcato aggressivo

    2. Adagio delicato –

    3. Adagio con moto – Energetico – Grave

    4. Allegretto deciso – Allegretto con fuoco – Tenebroso

     

    Penso que o gira-discos é um dos instrumentos mais entusiasmantes e realmente contemporâneos a emergir no nosso tempo. Representa um desafio interessante para qualquer compositor na medida em que não produz sons por si próprio, sendo por isso necessário fazer-se uma escolha criteriosa de sons para cada performance.

    Para muitas pessoas é a corporização de uma atitude pós-moderna perante a música, baseada na cultura dos samples, já que se trata essencialmente de tocar discos com outra música e instrumentos gravados; é frequentemente visto como um instrumento musical incompleto, um ladrão musical. Mas acredito que o potencial do gira-discos é bem maior do que aquele que normalmente se lhe atribui; as suas possibilidades sonoras são quase ilimitadas – já que o podemos apetrechar de quaisquer sons que queiramos, que ele por sua vez poderá manipular de muitas formas criativas e virtuosistas. Acresce ainda a possibilidade de se criarem sons próprios de gira-discos, sem usar amostras externas, ao manipular-se directamente a agulha.

     

    A história do gira-discos como instrumento musical é notável. A primeira vez que se usou dois gira-discos numa performance de música escrita foi em 1939, na obra Imaginary Landscape No. 1 de John Cage. O compositor pretendia controlar os sons electrónicos durante uma performance ao vivo, e nessa época o gira-discos era a tecnologia mais acessível com a qual se podia fazê-lo (embora viesse a ser ultrapassado brevemente pela fita magnética). John Cage foi também o primeiro compositor a usar agulhas de gira-discos como instrumento musical na sua obra Cartridge Music (1960). Mas teríamos de esperar até aos anos 70 para vermos novamente o gira-discos a ser usado como instrumento musical, quando os DJs (particularmente Grand Wizard Theodore e Grand Master Flash) inventaram o scratching no Bronx, Nova Iorque, e deram início ao turntablism, movimento no qual o gira-discos acabou por se tornar um instrumento muito expressivo com grandes capacidades virtuosistas. Ao mesmo tempo, o artista sonoro/compositor Christian Marclay começou a usar o gira-discos para criar colagens sonoras, iniciando uma abordagem mais ligada à arte sonora. Novas técnicas de ‘turntablism’ foram surgindo desde então, mas só no século XXI o gira-discos entrou na orquestra clássica…

     

    Compus o meu primeiro Concerto para gira-discos há pouco mais de 10 anos (não muito depois de DJ Radar & Raul Yanez terem interpretado o primeiro Concerto para gira-discos em Nova Iorque). Desde então, familiarizei-me muito mais tanto com o instrumento como com a composição para orquestra (já que esse concerto foi também a minha primeira composição para grande orquestra). A minha aprendizagem sobre o gira-discos evoluiu ao longo do percurso realizado por essa obra: foi tocada mais de 30 vezes, por 19 diferentes orquestras e por 7 DJs, tendo eu trabalhado com a maior parte deles na preparação da interpretação, descobrindo em cada uma dessas ocasiões algo mais sobre as possibilidades do instrumento.

     

    Embora me tenha causado alguma apreensão a proposta de compor um segundo Concerto para gira-discos, logo que comecei a esboçar ideias lembrei-me do quão inspirador era o instrumento para o qual estava a compor, e especialmente inspirador quando soube que o solista seria Mr Switch, e a orquestra a Sinfónica do Porto Casa da Música com Baldur Brönnimann.

    Como se tratava do Concerto n.º 2, senti alguma pressão no sentido de incluir algumas novas técnicas que não tinha usado no primeiro concerto, e talvez até tentar desenvolver abordagens completamente novas ao turntablism. Mas o que me pareceu mais importante, fundamentalmente, foi compor um concerto que fizesse sentido musicalmente e que deixasse o gira-discos brilhar como instrumento expressivo e virtuosista. Estava portanto tão ávido de usar técnicas clássicas de scratch e de aperfeiçoar a minha técnica de composição para gira-discos com orquestra, como de procurar a inovação.

     

    Este concerto explora então aqueles que são, na minha opinião, os pontos fortes do gira-discos – a sua destreza rítmica, a facilidade em transformar sons – e introduz também técnicas que não usei no meu primeiro concerto: particularmente a percussão de agulha (quando a agulha e a cabeça são usadas como instrumento de percussão em vez de lerem o disco de vinil). Explora também a relação entre a orquestra e o gira-discos: tal como no meu primeiro concerto, todos os sons que o DJ faz soar a partir do vinil são gravações de frases musicais tocadas pela orquestra no concerto, e não os clássicos samples para scratch usados geralmente no hip-hop. Esta abordagem permite um diálogo próximo e por vezes surpreendente entre o solista e a orquestra.

    Segue-se uma descrição breve de cada andamento, especificando algumas das técnicas usadas.

     

    O primeiro andamento inicia-se com uma surpresa, que demonstra de imediato como o gira-discos consegue facilmente transformar um som criado pela orquestra (para não estragar a surpresa, fico-me por aqui). Entramos então num ambiente escuro e urbano em compasso de cinco tempos, com o gira-discos a explorar o baixo profundo que consegue criar, trazendo para a orquestra um poderoso sub-baixo que normalmente não está disponível. (É importante apontar que, ao longo do concerto, o gira-discos toca vários padrões melódicos alterando a velocidade do prato com o botão de ajuste de pitch e o selector de rotações por minuto (33/45). Chega-se então a um clímax, um groove inspirado em Chostakovitch no qual o gira-discos justapõe à orquestra o tema revertido, introduzindo mais tarde uma técnica difícil em que o solista faz scratching num dos pratos, enquanto no outro mexe com o pitch criando uma linha de baixo.

    O segundo andamento contrasta com o primeiro pela sua serenidade, num ameno compasso ternário – com alguma influência de electrónica downbeat e de synth music dos anos 80, mas circunscrito à forma clássica. O gira-discos entra em ‘fase’ com as notas repetidas do clarinete solo, e depois justapõe e altera o pitch do acompanhamento orquestral sobre a orquestra. A secção intermédia do andamento seria provavelmente considerada um bass drop na música de dança electrónica: o gira-discos reverte os contrabaixos dando origem a uma linha de baixo rosnenta, e ao mesmo tempo introduz-se pela primeira vez a ‘percussão de agulha’ no prato da mão direita – com pancadas leves da agulha contra o eixo central e sacudindo o suporte da cabeça.

    Estruturalmente, este concerto poderá ser considerado um híbrido entre a clássica forma de concerto e uma performance em estilo de DJ battle . Assim, o final do segundo andamento funde-se directamente com a entrada do terceiro andamento, tal como um DJ misturaria continuamente entre mudanças de faixas. Os tímpanos introduzem o motivo inicial do terceiro andamento sobre uma frase do andamento anterior em loop. É aqui que o solista tem a oportunidade de explorar uma das particularidades mais fortes do instrumento: uma hábil dilatação rítmica de samples, usando neste caso samples de tímpanos, caixa e tam-tam. E, no meio do andamento (que tem um groove invulgar de 15 pulsações), conduz toda a energia rítmica da orquestra com scratching muito rápido a partir de sons de caixa. O andamento termina reduzido a uma textura contrapontística num compasso de seis pulsações, a metade do tempo, sobre a qual é acrescentado um errático solo de percussão de agulha.

    O quarto andamento inicia-se com uma das minhas técnicas favoritas de turntablism: transform (uma técnica de fast cutting ), usando um sample do trombone que o DJ modifica com um efeito de distorção e um filtro. Então, como tema central, o solista conduz ritmicamente a orquestra até um padrão de scratch sincopado em compasso de sete tempos, antes de responder à melodia rápida dos trompetes e violinos com transforms rápidos. Antes da coda climáctica surge outro bass drop, desta vez com o gira-discos deformando o padrão arpejado do clarinete baixo com reversões e filtros.

     

    Em termos estilísticos, este concerto enquadra-se no meu interesse constante pela composição de música erudita cruzada com a cultura contemporânea, o que passa por incorporar nas formas clássicas ritmos e texturas da música de dança contemporânea; de modo que estilos como a electrónica, funk, hip-hop, grime ou dub-step se tornem parte de uma mais ampla paisagem orquestral clássica.

    No que respeita ao conteúdo temático, a obra explora a relação entre o instrumento moderno e urbano e o mundo extraordinário e histórico da orquestra sinfónica. É uma reflexão sobre a experiência urbana moderna: a intensidade e velocidade da vida na cidade, a crescente presença da tecnologia, os momentos especiais de tranquilidade, os perigos e a agitação.

     


    Gabriel Prokofiev, 2016

    Tradução: Fernando P. Lima

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