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  • Entre as obras que Liadov nos deixou predominam as miniaturas para piano, mas também compôs algumas obras orquestrais; em ambos os casos a utilização de títulos de carácter programático está frequentemente associada a temas da sua Rússia natal. Desta forma, e também através da inspiração da música tradicional, Liadov partilha de algumas tendências dominantes da sua época, nomeadamente a valorização da cultura russa e das suas tradições orais e musicais. Demonstra, portanto, algumas afinidades com os compositores do chamado Grupo dos Cinco (Mili Balakirev, César Cui, Modest Mussorgski, Nikolai Rimski-Korsakoff e Alexander Borodin) e com a sua perspectiva nacionalista de composição. Liadov esteve também associado na década de 1880 ao círculo de Mitrofan Belyayev, um mecenas russo que protegeu e incentivou a edição e realização de concertos de música russa de cariz nacionalista. O percurso e obras de Liadov, no entanto, revelam em certos aspectos uma trajectória mais conservadora em relação aos seus colegas do Grupo dos Cinco, a que não seria alheio o facto de, na sequência de estudos formais de piano, violino e composição no Conservatório de S. Petersburgo, se ter tornado um pedagogo de renome nessa instituição.

    Ironicamente, o seu nome acabou por se tornar mais conhecido por ter sido convidado pelo director dos Ballets russes, Sergei Diaghilev, a compor a música para o bailado O Pássaro de Fogo, e por não ter cumprido essa tarefa. O convite foi transferido para o jovem Igor Stravinski, a quem o sucesso desta obra, estreada em 1910, viria a lançar no caminho da fama. Embora a justeza desta história seja contestada por alguns estudiosos, acabou por marcar a reputação deste compositor, que foi frequentemente acusado de preguiça e insegurança pelos seus contemporâneos e alunos.

    Kikimora (op. 63), O Lago Encantado (op. 62) e Baba-Yaga (op. 56) são provavelmente as obras pelas quais Liadov é hoje mais conhecido. Terão sido compostas em datas bastante próximas, numa fase tardia da sua carreira: Baba-Yaga nos primeiros anos do século XX, O Lago Encantado em 1909 e Kikimora em 1909-1910. Tanto Baba-Yaga como Kikimora foram inspiradas por personagens dos contos tradicionais eslavos. Kikimora era descrita como uma pequena bruxa travessa e malévola que se esconde nas casas dos humanos e os atormenta e assusta, especialmente durante a noite, quando os quer castigar. Baba-Yaga, uma personagem que inspirou também uma das peças de piano de Quadros de uma Exposição de Mussorgski, é também uma bruxa de apetite desmedido, que vive numa cabana assustadora na floresta. O carácter evocativo da música de Liadov encontrou um veículo ideal nestas histórias de fantasia.

     

    Em Kikimora, a que Liadov acrescentou o subtítulo ‘Lenda’, encontramos a representação do sobrenatural logo na densidade dos sons graves da secção inicial, que dão lugar a uma melodia melancólica no corne inglês, alternando com passagens em tutti de cariz tenso. O carácter sobrenatural é reforçado pela utilização da celesta. Segue-se uma secção mais rápida que sugere, através da agitação crescente da orquestra, o carácter malévolo da bruxa e os sons estridentes e repetitivos que emite para assustar os humanos. Ao clímax final sucede-se uma pausa brusca, e a bruxa desaparece num ponto final de flautim.

     

    Tal como em Kikimora, o compositor atribuiu o subtítulo ‘Lenda’ à partitura de O Lago Encantado, mas neste caso, não identificou a história. Numa carta a um amigo aludiu apenas a uma representação das estrelas reflectidas na profundidade da água, e de facto esta obra assume-se como uma imagem expressa através de cores orquestrais. A calma e a imobilidade são reforçadas por notas reiteradas de tessitura grave, por solos contemplativos distribuídos por instrumentos dos vários naipes da orquestra e pela utilização dos sons feéricos da celesta e da harpa, complementados pela filigrana dos acompanhamentos das flautas. 

     


    Helena Marinho, 2016 

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