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  • Panic é, em muitos aspectos, uma obra típica de Birtwistle. É-o, desde logo, pela instrumentação – exclusivamente sopros e percussão, sem cordas – num compositor que tem sempre relevado uma predilecção pelos sopros (o próprio reconhece que a escrita para cordas lhe é menos natural). Na verdade, as suas experiências musicais na juventude – em Accrington, uma cidade industrial do norte de Inglaterra – foram a tocar clarinete em bandas filarmónicas e militares, e o impacto dessas experiências foi duradouro. Algumas das obras mais marcantes para Birtwistle viriam a ser, justamente, obras orquestrais para sopros (sem cordas), como é o caso das Sinfonias de instrumentos de sopro,de Stravinski, ou de Et expecto ressurrectionem mortuorum, de Messiaen. Não admira, por isso, que a maior parte das obras de Birtwistle dê papel de destaque aos sopros, e que várias delas não tenham sequer cordas: é o caso de Panic, escrita para saxofone e bateria solistas, com uma orquestra de madeiras, metais e percussão.

    Outro aspecto em que Panic é típico do estilo de Birtwistle é nas referências mitológicas que a obra contém. Praticamente todas as suas óperas – e são muitas – baseiam-se em mitos, sejam eles de origem grega (A Máscara de Orfeu), inglesa (Punch e Judy) ou bíblica (A Última Ceia), e mesmo a sua música puramente instrumental evoca frequentemente ideias mitológicas, como é o caso de Theseus Game, obra orquestral com dois maestros, baseada no mito grego de Teseu, Ariana e Minotauro, que ouvimos recentemente na Casa da Música. Para Birtwistle, a ligação aos mitos permite-lhe abordar aspectos fundamentais (primitivos, até) da natureza humana, ao mesmo tempo que lhe possibilita dar uma nova perspectiva sobre histórias já conhecidas (um aspecto que o fascina particularmente).

    No caso de Panic, a referência mitológica é – conforme o autor explicita na partitura, citando um poema de Elizabeth Barrett Browning – a Pã, Deus grego dos bosques e dos campos: “O que estava ele a fazer, o grande deus Pã, / Lá em baixo, nos canaviais, junto ao rio? / Estava a espalhar a ruína e a maldição”. Na verdade, Birwistle designa a sua obra como um ditirambo, ou seja, um canto selvagem em honra de Dionísio, o deus grego associado aos aspectos sensuais e espontâneos (e caóticos) da natureza humana (por oposição ao deus Apolo, associado à ordem e à racionalidade). Esse impulso dionisíaco é muito claro na música, que tem uma enorme violência e agressividade, permanentemente sugerindo a ideia de caos e confusão. Na verdade, o saxofone solista parece representar o próprio deus Pã, constantemente incitando à confusão, com gestos musicais brutais, rudes e selvagens, e contando com o auxílio – sempre cúmplice – da bateria (que não é menos virulenta). Já a orquestra parece sugerir a resposta colectiva aos desmandos do deus Pã, uma resposta amedrontada, em pânico (tradicionalmente, o deus Pã era temido pelos viajantes nocturnos, em quem infundia pavores súbitos, inexplicáveis – a palavra pânico vem, aliás, de Pã).

    Outro aspecto interessante da obra é o uso do saxofone e da bateria, instrumentos mais associados ao jazzum estilo improvisado, espontâneo, e nesse sentido mais dionisíaco. Poderá ter sido também a irrupção destes instrumentos mais populares no altar da música erudita que são os Proms que justificou a imensa polémica aquando da estreia da obra. 

     


    Daniel Moreira, 2017 

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