Prelúdio nº 24 em Si menor, de O Cravo Bem Temperado, Livro I

Johann Sebastian Bach, Eisenach, 31 de Março de 1685 / Leipzig, 28 de Julho de 1750Leopold Stokowski,

[1722/orq.1929; c.5min.]

  • Foi aos 11 anos de idade, quando cantava no coro da Igreja Paroquial de St. Marylebone, em Londres, que Stokowksi descobriu o órgão, logo se apaixonando, muito em particular, pela música de Bach para esse instrumento. A partir de 1902 (com 20 anos de idade), trabalhou como organista e mestre de coro na Igreja de St. James, em Piccadilly, e quando rumou, três anos depois, para os Estados Unidos, assumiu uma posição comparável na Igreja de São Bartolomeu, em Nova Iorque.

    Mas seria como maestro, claro, que Stokowski mais se notabilizaria, sobretudo com o seu trabalho prolongado na Orquestra de Filadélfia, de 1912 a 1936. Aí introduziria muitas práticas inovadoras – na disposição dos instrumentos em palco, por exemplo –, criando um som quente, cheio, que ainda hoje se conhece como o “som de Filadélfia”.

    À medida que se dedicou mais à orquestra, Stokowksi começou a sentir saudades da música de Bach que tocara na sua juventude. É preciso recordar que, naquela altura, eram poucas as obras de Bach que faziam parte regular do repertório das orquestras: praticamente só os Concertos Brandeburgueses e as Suites orquestrais. O resto da sua música era pouco conhecida do grande público. É nesse contexto que, a partir da década de 1920, Stokowksi se dedicou a fazer arranjos (ou transcrições) para orquestra de música de Bach, sobretudo de peças originalmente compostas para órgão. Muitos desses arranjos tornaram-se famosos – em especial o da Toccata e Fuga em Ré menor, que se ouve no início do filme Fantasia, da Walt Disney –, muito contribuindo para tornar a música de Bach mais acessível ao grande público. No total, Stokowski fez cerca de cinquenta arranjos orquestrais de peças de Bach, dos quais ouvimos hoje dois dos menos conhecidos.

     

     

    Johann Sebastian Bach / Leopold Stokowski

    Prelúdio n.º 24 em Si menor, de O Cravo Bem Temperado (Livro I)

     

    A transcrição que Stokowski faz do último Prelúdio do Primeiro Livro do Cravo Bem Temperado não tem nada de grandiloquente. É, pelo contrário, extremamente simples, mobilizando apenas a orquestra de cordas e distribuindo as três vozes presentes no original de modo constante e uniforme: aos primeiros violinos cabe sempre a melodia mais aguda; aos segundos violinos e às violas, tocando em uníssono, a melodia intermédia; e aos violoncelos e aos contrabaixos, tocando geralmente em pizzicato, a melodia mais grave. As duas primeiras melodias têm um carácter muito expressivo, criando entre si, por vezes, intensas dissonâncias; já a melodia mais grave é mais contínua e regular, uma espécie de “baixo andante” (“walking bass”) como seria depois típico, também, de muita música jazz.

    Na partitura, Stokowski deixa uma breve nota sobre a composição de Bach (escrita em 1722): “Em termos de textura harmónica e melódica, composta por vozes instrumentais fluentes, todas de igual importância, este Prelúdio é uma das criações introspectivas mais belas de Bach. Parece brotar do mundo onírico do seu ser interior mais profundo, como uma improvisação inspirada”.

     


    Daniel Moreira, 2016