• 1. Ave Maria

    2. Stabat Mater

    3. Laudi alla Vergine Maria

    4. Te Deum

    A última fase da vida do compositor, onde se integram as Quattro Pezzi Sacri, começa com o Requiem (1874), composto para o 1º aniversário da morte do romancista italiano Alessandro Manzoni (1785‑1873). Após uma longa pausa compôs Otello (1887), a mais dramática e trágica das suas óperas, e mais tarde, já com 80 anos, apresenta a sua primeira ópera cómica, Falstaff 1893). As Quattro Pezzi Sacri, compostas entre 1889 e 1897, são as últimas obras da extensa produção musical de Verdi, compiladas e publicadas em 1898: Ave Maria, Stabat Mater, Laudi alla Vergine Maria e Te Deum.

    Embora a composição destas peças tenha sido independente e não pensada como um todo, elas são frequentemente executadas como uma espécie de ciclo, o que aconteceu pela primeira vez no ano da sua publicação (1898), na Ópera de Paris. Nestas obras, Verdi manifesta a sua sensibilidade e genialidade ao transpor para a narrativa musical o conteúdo poético‑religioso dos textos.

    O Ave Maria para coro a 4 vozes mistas a cappella, em latim, é composto em 1889 e sucessivamente revisto na década seguinte. Esta peça é construída sobre uma escala enigmática, formada por um conjunto invulgar de intervalos e criada pelo compositor Adolfo Crescentini, que a publica na Gazetta Musicale di Milano (1888), desafiando os compositores para que a harmonizassem. Incentivado por Arrigo Boito, o libretista das suas últimas duas óperas, Verdi aceita e concretiza o desafio, neste motete magnífico. O clima deste Ave Maria é místico, alternando momentos dramáticos e intensos com outros singelos e suplicantes, que exprimem a profundidade e ao mesmo tempo a singeleza do texto. É executada pela 1ª vez em Parma (1895), sob a direção de Gallignani, director do Conservatório da cidade.

    O Stabat Mater para coro a 4 vozes mistas e orquestra, em Sol menor (aqui numa versão para piano e harmónio), foi composto entre 1896 e 1897. Pouco se sabe sobre as origens deste texto que aparece na passagem do séc. XIII para o XIV, como um desenvolvimento piedoso e popular da narração da Paixão de Cristo (Evangelho de S. João 19, 25ss). O texto foi atribuído a S. Boaventura (+1274) ou a Jacopone da Tobi (+1306), e apresenta um estilo italiano, muito influenciado pela religiosidade à volta da Paixão de cariz franciscana e pela piedade mariana. O Concílio de Trento e o Papa Pio VI quiseram proibir o seu uso litúrgico, em virtude da sua forte conotação individual e popular, o que aconteceu em 1570. Em 1727, o Papa Bento XIII decretou que ele fosse usado de novo como Sequência e como Hino, na Missa da Festa das Sete Dores da Bem‑Aventurada Virgem Maria (15 de Setembro) e na liturgia das horas. Verdi apresenta uma versão original onde o texto é executado sem repetições.

    O uníssono inicial exprime todo o dramatismo do texto, evoluindo em secções exclamativas que oscilam entre a grande densidade vocal e um intenso intimismo com a intervenção de apenas uma das vozes, por vezes a cappella. A composição sincopada e intercalada de silêncios de algumas partes do texto, como o “Cujus animam” e “dum emisit spiritum” é uma figura marcante da retórica musical de Verdi, bem como o desenvolvimento de linhas melódicas cheias de expressividade e lirismo, como acontece em “Eia Mater fons amoris”. Secções de intenso cromatismo, como em “Fac ut portem Christi mortem”, produzem a atmosfera dramática que a semântica textual exige. A peça conclui com um intenso alargamento do espectro vocal até aos agudos no último verso “Quando corpus morietur fac, ut animae donetur paradisi gloria”, repousando num esperançoso e contido “Amen”.

     


    Paulo Antunes, 2013

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