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  • Conheci, há muitos anos, em La Rochelle, o Imperador Nero na pessoa de Peter Ustinov que o encarnou no inesquecível filme “Quo Vadis”. Deu-me um autógrafo sob a forma de cartoon, mas não tocou a sua burlesca lira do filme (que a partitura satiriza na banalidade dos três triângulos na parte final da partitura), antes cantou com a sua voz portentosa num espectáculo de humor raro do célebre Gerard Hoffnung. Foi no Festival de La Rochelle de 1973. Ambas as figuras bailaram no meu espírito, a par de SATYRICON (Petrónio, Nero…), ópera em um acto, fresco extraordinário de Bruno Maderna, ao compor România – paisagens subterrâneas após uma visita às ruínas romanas de Conímbriga, na região de Coimbra. Aquelas luxuriantes paisagens de simetrias em azulejos do solo romano de há milénios marcaram a minha memória. Esse fascínio visual transportou-me para as paisagens trágicas das ruínas e dos espectáculos da Roma Antiga, para as construções soterradas ou submersas ao longo de milhões de anos, para os cataclismos telúricos de Pompeia, para as paisagens caóticas das entranhas da terra que lembram também as sinuosas linhas das costas da Bretanha, origem do conceito de fractal de Mendelbrot. Esta breve peça para orquestra média é uma metáfora desse mundo físico, num diálogo musical entre massas sonoras (cordas) e linhas de polifonias abertas na restante orquestra. Este carácter granítico da obra é sublinhado pela ausência de instrumentos habituais nas obras do compositor, instrumentos ressonantes como o piano, entre outros instrumentos de tecla, harpa, percussões de som determinado ou indeterminado. Sons ora rugosos próximos do ruído, ora límpidos como vozes humanas, traduzirão o que nos possa aproximar das poéticas em conflito destas paisagens do Mundo Antigo. Do texto original sobre a partitura, transcrevo o passo seguinte, voltado para o mundo musical do seu interior: “Linhas, vozes, polifonias, ritmos; manchas, camadas, texturas, superfícies; painéis, telas, tapeçarias, mosaicos, pavimentos; cor, luz, imagem, tudo isto em paisagens verticais, ou diagonais, em paisagens circulares, horizontais, ou em todos os sentidos, espectáculos raros diante dos nossos olhos. Uma partitura pode ser também olhada como uma paisagem em movimento ao longe ou à nossa volta . De Beethoven a Debussy, de Ravel a Messiaen, o séc. XX enche-se de paisagens magníficas! Uma partitura pode representar, por si só, como objecto, uma paisagem que se prolonga noutras paisagens. Xenakis falava de “un autre paysage” para cada cenário no interior da sua obra. E as analogias podiam continuar”.

    România - paisagens subterrâneas resulta de uma encomenda do Festival Internacional de Música de Coimbra, em 2003, destinada a uma orquestra romena (daí o título também), e finalmente executada, parcialmente, pela Orquestra Gulbenkian em 2004. A obra evoca as Ruínas de Conímbriga que conheci por volta de 1970, a convite de um familiar e amigo ilustre da cidade de Coimbra, Professor António Barbosa de Melo (Presidente da Assembleia da República na época). 

     


    Cândido Lima, 2017 

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