Schumann-Phantasie

Hans Zender, Wiesbaden, 22 Novembro 1936

[1997; c.42min.]

  • 1. Präludium

    2. Ruinen (segundo o 1º andamento da Fantasia op. 17 de Robert Schumann)

    3. Interludium 1

    4. Triumphbogen (segundo o 2º andamento da Fantasia)

    5. Interludium 2

    6. Sternennacht (segundo o 3º andamento da Fantasia)

    Hans Zender estudou nos Conservatórios de Frankfurt e Friburgo, diplomando-se em composição, piano e direcção. Como maestro, desempenha funções nas mais prestigiadas orquestras e teatros de ópera da Alemanha desde a década de 60. Foi Professor de Composição no Conservatório de Frankfurt entre 1988 e 2000, cidade que lhe atribuiu o Prémio Goethe em 1997. No domínio da composição, Hans Zender afirmou-se internacionalmente a partir dos anos sessenta, muito particularmente em dois domínios: a música vocal, onde se destacam a série de peças vocais Canto I (1965) a Canto VII (1992) ou, mais recentemente, Tres canciones (2005) e Logos-Fragmente (2008), incluindo a vertente da música cénica com Stephen Climax (1984) ou Don Quijote de la Mancha (1991); o domínio da transcrição, ou adaptação de obras de outros compositores, sendo de destacar Diálogo com Haydn (1983), Cinco Prelúdios de Debussy (1991), Schuberts Winterreise (1993), Schumann-Fantasie (1997) e 33 Veränderungen über 33 Veränderungen (2011). Neste capítulo específico há ainda que fazer a distinção entre o tipo de transcrição clássica, que consiste apenas numa orquestração e que acontece no caso dos Cinco Prelúdios de Debussy, e aquilo a que Zender chama “uma interpretação composta” e que encontra exemplos brilhantes no seu recente trabalho sobre as obras de Beethoven, Schubert e Schumann.

     

    Conforme o nome indica, Schumann-Phantasie é inspirada na célebre peça para piano de Schumann, Fantasia op.17. O título original Fantasia reflecte a reinvenção da forma e uma liberdade que rompe com as amarras estruturais pré-concebidas. A Fantasia teve origem numa peça de grandes qualidades melódicas e de carácter impetuoso, tremendamente exigente do ponto de vista técnico, que Schumann escreveu no ano de 1836 e a que chamou Ruines. Nesta peça, o compositor procurou expressar os sentimentos simultaneamente apaixonados e desolados de estar afastado da pessoa que amava e com quem mais tarde veio a casar, a grande pianista Clara Wieck. Esta partitura, que se transformou no primeiro andamento da Fantasia, foi considerada pelo compositor como a mais apaixonada que jamais escreveu. O original de Schumann tem três andamentos e uma duração ligeiramente superior a 32 minutos.

    Hans Zender compôs a sua Fantasia sobre Schumann na linha de “uma interpretação composta”, acrescentando um prelúdio de introdução e dois interlúdios à obra original, os quais intercalam a orquestração dos andamentos originais. Há claramente da parte de Zender uma intenção de confrontar os dois universos sonoros criando um choque temporal, um corte no tempo como se o processo histórico fosse interrompido e se passasse do Romantismo para os nossos dias sem nada no meio. Nas orquestrações dos três andamentos originais de Schumann, Hans Zender mantém-se fiel ao espírito da obra mas assume uma instrumentação assumidamente moderna. Ou seja, ouvimos e reconhecemos perfeitamente o original de Schumann e até podemos dizer que os instrumentos escolhidos sugerem uma interpretação de carácter emocional, uma dramaturgia da obra, mas esta nunca seria uma orquestração possível no tempo de Schumann.


    Rui Pereira, 2015