Seis peças para grande orquestra, op.6

Anton Webern , Viena, 03 de Dezembro de 1883 / Mittersill, 15 de Setembro de 1945

[1910; rev. 1928; c.13min.]

  • 1. Etwas Bewegte Achtel (Muito animado)

    2. Bewegt (Animado)

    3. Zart Bewegt (Docemente animado)

    4. Langsam, Marcia Funebre (Lento, marcha fúnebre)

    5. Sehr Langsam (Muito lento)

    6. Zart Bewegt (Docemente animado)

     

    Dos compositores associados à Segunda Escola de Viena, Webern é considerado o mais sintético. Um dos primeiros alunos de Schoenberg, Webern desenvolveu uma abordagem particular ao Modernismo. Para isso contribuíram os seus estudos de musicologia na Universidade de Viena, sob a direcção de Guido Adler. Webern dedicou a sua tese de doutoramento à música sacra do compositor renascentista Heinrich Isaac. Isaac era um mestre da polifonia em estilo franco-flamengo, utilizando inúmeras formas de apresentação do material temático nas suas obras. Essa proficuidade no tratamento das melodias de cantochão fascinou Webern, que aplicou algumas dessas práticas nas suas obras.

    As Seis peças foram escritas em 1909, numa época em que Webern se encontrava a procurar trabalho enquanto director de orquestra, e concebidas como um tributo à memória da sua mãe, falecida em 1906. Nessa altura, o Modernismo vienense estava efervescente, com o desenvolvimento do atonalismo ou pantonalismo dos compositores do círculo de Webern. Escrita para grande orquestra e recorrendo a instrumentos menos comuns nessa formação, a obra foi revista em 1928 pelo compositor, adaptando-a a uma orquestra mais reduzida mas mantendo grande parte da sua estrutura. Entre as duas versões encontra-se a adopção do dodecafonismo serial por Webern (existe ainda um arranjo de câmara de 1920). Contudo, nenhuma foi editada comercialmente em vida do compositor, que apenas publicou privadamente a primeira versão da obra, estreada em Viena a 31 de Março de 1913. Esse concerto, que incluía obras de compositores ligados à Segunda Escola de Viena e de Mahler, escandalizou o meio cultural da cidade. Assim, foi um paralelo da estreia em Paris do bailado A Sagração da Primavera, de Stravinski, nesse mesmo ano.

    As Seis peças para orquestra misturam o refinamento estético com uma pulsão primitivista, uma característica de algumas tendências do Modernismo. A sua brevidade reflecte a densidade do estilo de Webern, que cria obras de curta duração com um grande número de referências internas. Essa abordagem quase estruturalista exerceu uma grande influência nos compositores do pós-Segunda Guerra Mundial, fascinados pelos processos intelectuais webernianos. A angularidade e brevidade do material temático, bem como o recurso a texturas esparsas, são características proeminentes na obra. A primeira peça tem uma atmosfera feérica, em que melodias angulares são apresentadas solística e sucessivamente, sobre tremolos. A segunda peça do conjunto é a única com um andamento rápido. A dissonância e a paleta dinâmica alargada destacam-se nesta curta obra, cuja atmosfera é reforçada pela orquestração. Segue-se uma peça cujo material e carácter se assemelha a uma canção de embalar. A atmosfera fúnebre associada a Mahler emerge na quarta peça, uma marcha introduzida pela percussão. A peça seguinte tem um carácter estático, contrastando os tremolos nas cordas graves com recurso aos harmónicos. A obra termina com uma peça curta e angular, um aforismo que sintetiza o estilo do compositor.

     


    João Silva, 2016