• 1. Prelúdio em Si menor, op. 32 n.º 10: Lento

    2. Prelúdio em Sol sustenido menor, op. 32 n.º 12: Allegro

    3. Prelúdio em Lá menor, op. 32 n.º 8: Vivo

    4. Prelúdio em Sol maior, op. 32 n.º 5: Moderato

    5. Prelúdio em Dó menor, op. 23 n.º 7: Allegro

    6. Prelúdio em Sol menor, op. 23 n.º 5: Alla marcia

     

    Sergei Rachmaninoff foi um dos últimos grandes virtuosos do piano. Antes de alcançar notoriedade como compositor era uma já uma celebridade no universo pianístico, com uma carreira notável. Talvez por isso a sua obra para piano seja a mais conhecida e divulgada, muito embora o compositor russo seja autor de uma vasta produção musical que inclui três sinfonias, outras tantas óperas, poemas sinfónicos, bem como música vocal e de câmara.

    À semelhança de Chopin, também Rachmaninoff escreveu um conjunto de 24 Prelúdios em todas as tonalidades maiores e menores. Mas, ao contrário do seu antecessor, fê-lo em duas séries: uma primeira série de 10 Prelúdios (op. 23), escrita entre 1901 e 1903, e uma segunda série de 13 Prelúdios (op. 32), datada de 1910; o vigésimo quarto prelúdio, em Dó sustenido menor, é o n.º 2 dos 5 Morceaux de fantasie (op. 3)e foi, na realidade, o primeiro a ser composto, em 1892.

    Os 10 Prelúdios op. 23 surgiram na mesma altura em que Rachmaninoff estava imerso na criação da sua primeira grande obra para piano solo, as Variações sobre um tema de Chopin, op. 22. O tema que serviu de base às variações foi o Prelúdio n.º 20 em Dó menor do compositor polaco, de modo que é bastante provável que Rachmaninoff se tenha sentido impelido a emular o seu antecessor. Num recital dado em Moscovo, a 10 de Fevereiro de 1903, o próprio compositor estreia as Variações op. 22 e três dos 10 Prelúdios op. 23 (n.os 1, 2 e 5).

    A segunda série nasce em 1910, num período de grande actividade criativa de Rachmaninoff. “Acabei a Liturgia [de São João Crisóstomo, op. 31]. (…) Há muito tempo que não compunha nada com tanto prazer. E é tudo. Para além disso são só desejos e boas intenções. O pior de tudo é o negócio das pequenas peças para piano. Eu não gosto desse trabalho; é-me sempre difícil”, conta o compositor ao seu amigo Nikita Morozov em carta datada de 31 de Julho de 1910. Apesar da renitência, Rachmaninoff termina as 13 “pequenas peças para piano” entre Agosto e Setembro de 1910, antes de empreender uma tournée pela Europa como pianista. Os Prelúdios op. 32serão estreados pelo próprio compositor em Moscovo, num recital datado de 13 de Dezembro de 1911, juntamente com os Études-Tableaux, op. 33.

    Rachmaninoff deixa transparecer de forma bastante evidente, nos 24 Prelúdios, as principais características da sua escrita para piano: o lirismo melódico e o virtuosismo. O próprio compositor chegou a escrever que “a criação melódica deveria ser o verdadeiro objectivo de todo o compositor”. E, de facto, nesse conjunto de pequenas peças sobressai uma qualidade lírica refinada e sensível e uma extrema virtuosidade que advém da escola pianística de Liszt, por intermédio de Alexander Siloti, seu professor no Conservatório de Moscovo, que havia sido discípulo em Weimar do virtuose húngaro.

    Os Prelúdios op. 32 n.º 10, em Si menor, e n.º 5, em Sol maior, são dois exemplos perfeitos do lirismo melódico do compositor russo. O n.º 10, Lento, é intimista e introspectivo; o ritmo siciliano e o desenho harmónico do início fazem lembrar o Momento Musical op. 94 n.º 2 de Schubert. O Prelúdio n.º 5, Moderato, contém uma melodia belíssima dotada de uma simplicidade e uma luminosidade ímpares, que é acompanhada no registo médio do piano por conjuntos de cinco semicolcheias, também chamadas de quintinas. As peças n.os 12 e 8, em Sol sustenido menor e Lá menor, respectivamente, testemunham de forma exemplar a dificuldade técnica, o virtuosismo presente na obra de Rachmaninoff. Na primeira, Allegro, uma melodia sóbria e determinada sobressai por entre um turbilhão de notas que emerge do registo agudo do piano. A segunda é um poço de virtuosidade, é uma peça curta e concisa onde a ideia musical se desenvolve a uma velocidade vertiginosa. Curiosamente, no início da peça parece que o compositor hesita duas vezes sobre o que vai escrever e só à terceira tentativa decide finalmente o que fazer.

    O sétimo Prelúdio da primeira série, Allegro, é outro exemplo da escrita virtuosística de Rachmaninoff. A série ininterrupta de semicolcheias que transita entre as duas mãos do pianista faz lembrar uma avalanche de ondas que se abate sobre um imenso areal. O quinto Prelúdio op. 23 talvez seja, juntamente com o op. 3 n.º 2, o prelúdio mais conhecido do compositor russo. É uma obra plena de carácter à qual o compositor deu a indicação Alla marcia. A primeira parte é dominada por um ritmo característico que remete para a Polonaise chopiniana e que contrasta totalmente com o exotismo da melodia que preenche a secção central.

     

     


    Ana Maria Liberal, 2017