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  • 1. Adagio maestoso - Allegro con spirito

    2. Menuetto: Allegretto

    3. Concertante: Andante gracioso

    4. Rondo: Allegro ma non troppo

    5. Andantino

    6. Menuetto

    7. Finale: Presto

     

     

    No século XVIII, Salzburgo – a cidade natal de Mozart – era um dos principais centros de produção de serenatas, a par de outras cidades igualmente activas como Munique, Regensburg e Oettingen-Wallerstein. O próprio pai de Mozart fora um dos que mais cultivara o género, compondo mais de 30 serenatas (quase todas entretanto perdidas). Tal como nas outras cidades, e como era típico da época, também em Salzburgo as serenatas eram tocadas ao ar livre e assinalavam ocasiões importantes. Porém, a serenata tinha aí algumas especificidades. Para já, era quase invariavelmente composta para orquestra, enquanto que noutras cidades era habitualmente escrita para pequenos ensembles. Outra especificidade era o facto de frequentemente as serenatas servirem de Finalmusik, ou seja, música que os estudantes da Universidade de Salzburgo ofereciam aos seus professores no final do ano lectivo, no âmbito das cerimónias de graduação. Nessa circunstância, parte da performance tinha lugar em frente ao Palácio de Mirabell, onde se encontrava o Arcebispo (líder político de Salzburgo); depois os estudantes e os músicos caminhavam, em procissão, rumo ao edifício da Universidade, onde tinha lugar a segunda parte da actuação. Ao que parece, a maior parte das serenatas orquestrais compostas em Salzburgo destinavam-se a este fim. Isso parece também aplicar-se às de Mozart, havendo alguma evidência de que várias delas foram compostas como Finalmusik – incluindo a Serenata KV 320, que hoje ouvimos, que terá acompanhado as cerimónias de graduação em 1779 (embora não haja disso completa certeza).

    Tanto em Salzburgo como nas outras cidades, as serenatas dividiam-se em vários andamentos: no início, um andamento mais longo e elaborado, em forma-sonata; a terminar, um andamento vivo e muito curto; no meio, andamentos alternadamente lentos e rápidos (estes últimos frequentemente minuetes); e, ainda, enquadrando tudo o resto, uma marcha inicial e outra final. Neste contexto, uma particularidade de Salzburgo foi ter acrescentado a essa estrutura andamentos concertantes, em que um grupo de instrumentos assumia um papel solista.

    No essencial, a Serenata KV 320 (também conhecida pelo cognome “corneta de postilhão”) segue essa estrutura. Assim, o primeiro andamento é, de todos, o mais elaborado, com dois temas contrastantes: o primeiro mais enérgico e majestoso e o segundo mais lírico. O segundo andamento, por sua vez, é um minuete, cuja primeira parte traduz bem a pompa e circunstância dessa dança palaciana, contrastando com a parte intermédia (chamada “trio”), mais recolhida, em que se destaca a flauta e o fagote. Seguem-se dois andamentos concertantes, em que o papel solista é entregue aos sopros: no primeiro deles, de andamento moderado, destacam-se as duas flautas e os dois oboés, às vezes em conjunto, outras em diálogo; no segundo, de andamento mais vivo, há um tema recorrente que é alternadamente exposto pela flauta e pelo oboé. Segue-se o quinto andamento da serenata, em tonalidade menor, trazendo uma súbita mudança de atmosfera: a música é agora, pela primeira vez, séria e angustiada, trágica até, de uma pungência algo inesperada num contexto tão mundano quanto o de uma serenata! Já o sexto andamento é um novo minuete, igualmente pomposo, como o anterior, mas agora com dois trios, cada um com um diferente solista: no primeiro, o flautim; no segundo, a corneta de postilhão, um instrumento que assinalava a chegada do homem dos correios e que dá à serenata o cognome por que é conhecida. Por fim, o sétimo andamento é de grande brilho e alegria frenética.

    Pelo extraordinário requinte da escrita instrumental (sobretudo dos sopros), bem como pela complexidade e intensidade expressiva da música, esta Serenata mostra como Mozart conseguiu elevar um género de mera “música de fundo” a uma forma séria de expressão musical. De resto, em toda a música que Mozart compunha, revelava essa ambição de abrir novos caminhos, uma atitude que nem sempre parecia ser muito apreciada na cidade. O próprio Mozart disso se queixaria, mais tarde: “Confesso que trabalhar em Salzburgo era para mim um fardo. Porquê? Porque… lá não há estímulo para o meu talento! Quanto toco ou alguém toca alguma das minhas composições, é como se o público fossem mesas e cadeiras”. Na verdade, era especialmente tensa a relação dos Mozarts (pai e filho) com o Arcebispo Colloredo, desde a sua subida ao cargo, em 1771. Censuravam-lhe ter diminuído as oportunidades para se fazer música em Salzburgo e apoiar músicos estrangeiros (sobretudo italianos) em detrimento da “prata da casa”. E procuraram, por isso, fugir de Salzburgo, encontrando emprego noutro lugar. Ao mesmo tempo, desafiavam a autoridade de Colloredo, não só em declarações verbais, mas também no próprio facto de Mozart se esquivar a compor música religiosa para a corte, como era a sua obrigação principal, e preferir concentrar-se na música instrumental. Voltando à serenata que hoje ouvimos, há até quem nela veja, nos momentos mais belicosos do primeiro andamento, um retrato sarcástico do Arcebispo. E há também quem veja no uso da corneta de postilhão um sinal de adeus, de partida do próprio Mozart da sua cidade natal. E o que é certo é que, dois anos depois, em 1781, Mozart cortaria definitivamente relações com Colloredo, abandonando Salzburgo e permanecendo, até ao fim da sua vida, em Viena.

     


    Daniel Moreira, 2016 

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