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  • 1. Largo – Allegro vivace

    2. Minuetto

    3. Andante sostenuto

    4. Presto

     

    No final do século XVIII e pela primeira vez na era cristã, a música secular sobrepõe-se à música sacra. A “Idade das Luzes” fazia o seu caminho, graças a Galileu, Newton, Diderot, d’Alembert, Voltaire, Rousseau. A Europa caminhava a passos largos para o movimento Romântico, e desde a Revolução Francesa e a afirmação política do Novo Mundo nas Américas, enfrentava agora profundas transformações sociais e políticas.

    Na música, a ópera e a sinfonia impõem-se como géneros de eleição, libertando-se das amarras dos modelos barroquizantes. A Europa fervilha de música nos centros culturais mais activos, como Viena, Londres, Praga, Mannheim, Nápoles. Muitos compositores ficarão na sombra da história perante o brilho, a grandeza e imortalidade dos nomes maiores que se constituem como marcos geniais da história da música, como Mozart, Haydn ou Beethoven. Mas o talento, a qualidade e o papel que muitos deles desempenham no desenrolar da história deve ser assinalado e devidamente reconhecido.

    A alguns destes músicos, como Muzio Clementi, John Field e o português João Domingos Bomtempo, se deve a gradual afirmação da figura do pianista-compositor do Romantismo (de que Chopin e Liszt viriam a ser as figuras máximas), edaquilo a que se chamou o “estilo brilhante”.

     

    Apesar de ser o maior nome da música instrumental do final de setecentos e primeira metade do século XIX em Portugal, o compositor e pianista João Domingos Bomtempo permanece ainda relativamente desconhecido da maior parte dos portugueses. A sua formação e carreira decorreram contra todas as probabilidades, tendo em conta o ambiente lisboeta retrógrado do final de setecentos, a ausência duma burguesia próspera que incentivasse o consumo artístico privado, as invasões napoleónicas, a saída da corte para o Brasil, as lutas liberais e a guerra civil – um quadro geral em tudo contrário às artes.

    Durante o reinado de D. Maria I e na regência de D. João VI, apesar de um certo cosmopolitismo da corte, o peso da Igreja Católica da Contra-Reforma resultou num certo “fechamento cultural”, quecondicionou a plena introdução do espírito iluminista do “século das luzes” em Portugal.Se a música puramente instrumental tardava a impor-se, mais ainda a introdução de um repertório de feição mais moderna, ou de outra origem que não a italiana.

    É neste contexto que nasce João Domingos Bomtempo, filho do italiano Francesco Saverio Bomtempo, oboísta vindo para Portugal para integrar a Real Câmara em meados do séc. XVIII. Faz-se músico ainda jovem e em 1801, aos 26 anos, decide aperfeiçoar-se: escolhe Paris, em vez de Roma ou Nápoles (como era habitual entre os seus pares), e opta pela música instrumental em vez da ópera – o piano.

    É a primeira grande ruptura com a tradição: o jovem João Domingos vai à procura das novas correntes estilísticas do centro europeu, na senda da Escola de Viena. Busca música no espírito do seu tempo, um tempo voltado para o futuro e para a música instrumental.

    Liberdade, Igualdade, Fraternidade – é este o ar que se respira em Paris. E é onde Bomtempo inicia uma carreira de pianista de sucesso, brilhando nos salões como solista. A simpatia de Bomtempo pela causa liberal e o seu muito provável envolvimento com a maçonaria terão certamente tido influência nesta escolha.

    É em Paris que começam os contactos e as amizades artísticas que vão influenciar a escrita musical de Bomtempo, como por exemplo Muzio Clementi – o famoso pianista, pedagogo e editor, de quem absorveu muito do seu estilo pianístico. Foi o seu grande amigo e viria a ser o seu editor em Londres. A Sinfonia n.º 1 data deste período, provavelmente de 1809. É um marco na nossa História da Música, por ser a primeira sinfonia clássica escrita por um português.

    O primeiro andamento abre com um Largo no mesmo acorde d’A Flauta Mágica de Mozart. A solenidade maçónica introduz um Allegro vivace em forma-sonata que faz brilhar o espírito criativo de Bomtempo – este domina a escrita com confiança pressentindo-se a pulsão pré-romântica que o invade. O Minuetto que se segue ainda não é um scherzo, como em Beethoven, e como virão a ser muitos dos minuetos das sonatas e obras de câmara no futuro, mas já não segue o tempo habitual do minueto.

    O Andante sostenuto remete-nos claramente para o século XIX. E algures, sente-se a voz da Pátria, numa espécie de fado fundido numa ária italiana. Como escreveu Gerard Doderer, “mantendo sempre uma linguagem musical elegante, no seu carácter expressivo, muitas vezes permite-se reconhecer a feição elegíaca do sentimento lusitano”.

    O andamento final, um Presto construído em forma-sonata, é um rodopio de cromatismos, de malícia jocosa e de brilhantismo orquestral.

    Estilisticamente, Bomtempo começa por expressar na sua música o seu amor por Haydn e a técnica de Clementi. Mas sente-se que persegue mais do que isso. A veia do Romantismo pulsa-lhe por entre a escrita classicista. Arrisca sobretudo na forma, incorpora melodismos próximos da vocalidade, a exemplo de John Field, seu amigo, e busca uma originalidade que por vezes se ofusca na profusão dos temas que introduz.

    Após as Guerras Peninsulares, Bomtempo regressa a Lisboa com mais frequência, mas de forma intermitente. Sabe-se que em 1816 está em Londres, em 1818 está em Paris e novamente em Londres em 1819. Nas passagens curtas por Lisboa encontra sempre um ambiente pouco propício à actividade musical, com o país sob domínio inglês no rescaldo das invasões francesas e com a corte ainda no Brasil.

    Nesse período dedica-se à composição daquela que será a sua obra-prima: o Requiem à Memória de Camões, datado de 1818 e apresentado em Paris e em Londres com grande sucesso – vivia-se um período de revivalismo em torno da obra camoniana. Em 1820 regressa definitivamente a Portugal, entusiasmado com a proclamação da Constituição.Compõe e dedica obras à causa constitucional e liberal, envolve-se profundamente na transformação do país para um modelo assente na Carta Constitucional e noliberalismo político, acreditando na instituição de um novo tipo de sociedade, baseada na igualdade jurídica de todos os cidadãos perante a lei, no respeito pelos direitos naturais dos homens e pela liberdade individual em todos os sectores.

    Radicado em Lisboa, dedica-se finalmente à criação da Sociedade Filarmónica, uma sociedade de concertos que assentava num sistema de subscrição pública – tal como existiam em Paris, Viena, Londres e em todas as capitais cultas da Europa – e que contou com o apoio de personalidades de tendências liberais, com destaque para o Barão de Quintela, o Duque de Cadaval ou os Duques de Lafões. Era, de resto, a única forma de se realizarem concertos públicos.

    Graças à Sociedade de Concertos, foi finalmente possível ouvir em Portugal obras inéditas de Mozart, Beethoven (como a 5ª Sinfonia) e Haydn, para além dos compositores amigos com quem Bomtempo tinha convivido em Paris, como Clementi, Cherubini ou Boccherini.

    Com a dissolução das Cortes por D. Miguel e com a instauração do Regime Absoluto, Bomtempo é obrigado a fugir ou esconder-se. Em 1828 refugia-se no consulado da Rússia em Lisboa, de onde só saiu em 1833, 5 anos depois, quando D. Pedro IV chega a Lisboa e se dá nova viragem política.

    Implantado o Regime Constitucional e recuperada a normalidade institucional, o novo regime reconhece-lhe as qualidades cívicas e artísticas e atribui-lhe a qualificação de mestre de música da Rainha D. Maria II, que o agracia com a Comenda da Ordem de Cristo.

    Em 1835 é nomeado primeiro director da Escola de Música do Conservatório Geral de Arte Dramática, acabado de fundar por Almeida Garrett.

     


    Gabriela Canavilhas, 2017 

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