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  • Ao compor a obra que hoje conhecemos como Sinfonia n.º 2, Chostakovitch respondia à sua primeira encomenda. Tinha, então, apenas 20 anos de idade, mas o trabalho que lhe era proposto era já de grande responsabilidade: compor uma obra em honra do 10º aniversário da Revolução de Outubro. Apesar do título actual, o compositor não pensou originalmente a obra como uma sinfonia. Entre os títulos provisórios que lhe atribuiu incluíam-se “poema sinfónico“ e “dedicatória sinfónica a Outubro”. Só numa fase bastante avançada é que usou o título de “sinfonia”. Tal não é de surpreender, visto que a estrutura da obra não se conforma aos padrões tradicionais de uma sinfonia, em especial por ter um único andamento (ao contrário dos quatro convencionais), por ser relativamente curta, não apresentar temas musicais recorrentes e, ainda, por ter um peso muito acentuado de música vocal face à música instrumental.

    Embora estruturada num único andamento, a sinfonia divide-se, claramente, em duas partes principais, muito contrastantes entre si: a primeira, exclusivamente instrumental; a segunda, dominada pelo coro. A primeira parte é de estilo resolutamente modernista, nele predominando uma escrita dissonante e atonal em que, para além de se reconhecer a influência de compositores ocidentais contemporâneos como Alban Berg, se antevê até alguma música vanguardista do pós-guerra (algumas passagens de textura mais densa e complexa soam quase ligetianas). Já a segunda parte, dominada, como se referiu, pelas vozes, é de estilo mais tradicional, linguagem mais tonal e carácter eminentemente celebratório. Nela o coro dá corpo a um texto de Alexander Bezymenski que descreve a trajectória do proletariado russo, desde a opressão no tempo do czarismo (“Nós caminhávamos, pedindo trabalho e pão, / Os nossos corações estavam esmagados pela tristeza”) até à sua libertação, comandados por Lenine, na Revolução de Outubro (“E ninguém jamais nos tirará / Esta vitória sobre o jugo e a escuridão / … / Pois o nome da vitória é Outubro!”).

    Na verdade, o texto permite, retrospectivamente, entender a primeira parte – exclusivamente instrumental - como a representação de várias fases do processo revolucionário: o passado não esclarecido da classe operária, simbolizado com o carácter escuro e inerte da música inicial; o despertar da consciência revolucionária, quando o andamento fica mais rápido e a música mais rítmica, como que representando uma ideia de revolta ou protesto; e, por fim, uma passagem extremamente livre, em que se sobrepõem cada vez mais partes independentes na orquestra, de forma cada mais activa e frenética, como que numa celebração da libertação do proletariado, ainda de forma algo anárquica (antes de uma nova ordem ser estabelecida). Segundo a musicóloga soviética Marina Sabinina, o jovem Chostakovitch baseou-se nos espectáculos revolucionários de rua existentes naquela altura, daí tendo surgido a ideia de fazer da sinfonia uma série de quadros ou representações dramáticas relativamente realistas.

    Muita tinta tem corrido sobre o grau de sinceridade e entusiasmo com que Chostakovitch compôs esta obra. Para alguns, só compôs a obra porque praticamente a tal foi obrigado, e teria até tentado, subversivamente, criticar o regime: assim, o início da música, escuro e caótico, poderia representar não só o tempo czarista como também o lado mais negro do regime bolchevique. É claro para muitos, porém, que Chostakovitch simpatizava com as ideias comunistas e, seja como for, o período mais agudo das perseguições estalinistas não tinha ainda começado: prova disso é, aliás, o carácter modernista de boa parte da música. É certo que, em cartas enviadas a amigos, Chostakovitch deu conta de uma certa frustração e desalento ao compor esta peça, mas isso parece ter-se sobretudo devido aos apertadíssimos prazos que tinha de cumprir (tendo recebido a encomenda no fim de Março de 1927, tinha de entregar a partitura completa até ao dia 1 de Agosto) e também à avaliação muito negativa que fazia da qualidade artística (e não necessariamente do conteúdo) do poema.

     


    Daniel Moreira, 2016 

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