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  • 1. Largo – Allegro moderato

    2. Allegro molto

    3. Adagio

    4. Allegro vivace

     

    A Sinfonia n.º 2 em Mi menor, op. 27, composta em 1906-7, foi uma obra-chave no processo de afirmação pessoal de Sergei Rachmaninoff. Com Mahler e Chostakovitch a dominarem o centro do espaço compositivo e os palcos dos principais centros musicais da Europa, e com a presença ainda hegemónica das sinfonias de Tchaikovski, o mundo musical voltava-se aos poucos para o novo século e para a modernidade. É nesse contexto que ressurge Sergei Rachmaninoff, o famoso pianista-compositor que se tornou internacionalmente conhecido pelas interpretações virtuosísticas e pelas composições para piano, sedutoras, tardo-românticas, em tempos em que os movimentos impressionistas e expressionistas já dominavam nas diversas expressões artísticas, e a chamada 2ª Escola de Viena se preparava para revolucionar o mundo da música com a abstracção da tonalidade. Ressurge como maestro e compositor no repertório mais emblemático de entre todos – a forma sinfónica – com a sua 2ª Sinfonia, escrita num período em que residia em Dresden e estreada sob a batuta do próprio, em São Petersburgo, em 26 de Janeiro de 1908. É surpreendente que Rachmaninoff tenha tentado de novo a grande forma sinfónica depois do desaire que foi a recepção pública da sua 1ª Sinfonia, em 1897, que o levou, inclusive, a procurar apoio psiquiátrico dada a sua natureza sensível, melancólica e introvertida.

    Este regresso à sinfonia terá sido certamente impulsionado pelo enorme sucesso que obteve com o seu Concerto para piano n.º 2, que abriu um período muito produtivo em que compôs inúmeras obras para piano, canções, música de cena e a Sonata para violoncelo e piano, o que lhe terá renovado a confiança para abordar novamente o género sinfónico. A 2ª Sinfonia ganhou o Prémio Glinka, de 1.000 rublos, e começou de imediato a ser tocada por diversas orquestras, embora com grandes cortes que lhe retiraram o equilíbrio original e lhe adulteraram a estrutura. Durante décadas, a obra foi sempre apresentada mitigada na sua plenitude formal. O grande maestro Leopold Stokowski terá sido, provavelmente, o único que a dirigiu sem cortes significativos, mas foi preciso chegar a 1970 para ser finalmente ouvida na íntegra, graças a André Previn, à frente da Orquestra Sinfónica de Londres.

    O 1º andamento,Largo – Allegro moderato, abre com um motivo solene e impressivo, que se expande, numa introdução lenta, definindo uma identidade sonora escura, opulenta, com as cordas em evidência. A unidade e a robustez do andamento advêm de uma rede de referências cruzadas que faz emergir o melhor do universo idiomático de Rachmaninoff. A invenção melódica surge numa tessitura reduzida, mantendo no entanto toda a sua beleza. No desenvolvimento, Rachmaninoff segue o modelo que Tchaikovski usara no andamento inicial da sua Sinfonia Patética. A parte central do andamento rompe o clima e leva-o para um ambiente carregado e ameaçador, que acaba numa coda enérgica, abruptamente interrompida.

    O 2º andamento,Allegro molto – Meno mosso – Tempo I, contém provavelmente algumas das mais vigorosas páginas de música orquestral de Rachmaninoff. É robusto e imaginativo, pleno de contrastes, impositivo, nobre e arrojado; o Trio é uma melodia de um lirismo largo e sumptuoso que se liga a um fugato inesperado no centro do andamento, onde espreita um misterioso coral de metais, já perto do final sombrio, que relembra e nos reintroduz no universo sonoro da introdução do 1º andamento.

    O 3º andamento,Adagio, é uma espécie de grande Romanza para orquestra. Abre com um belíssimo tema cantabile, largo e amplo, que define claramente o universo musical de Rachmaninoff, ao qual se segue uma melodia notável no clarinete, de grande fôlego, que paira sobre o naipe dos violinos. Regressa então o tema do 1º andamento, numa retoma cíclica que se destina à unidade formal que, infelizmente, tantas vezes foi amputada no passado.

    O 4º e último andamento,Allegro vivace, começa em tom festivo com um episódio marcial que conduz a um grande tema melódico, em ambiente afirmativo e confiante. A orquestração rica, triunfal, de novo com reminiscências de material já usado, culmina numa cascata de escalas descendentes que perpassa pelas diferentes secções instrumentais da orquestra.

     

    A reacção à música de Rachmaninoff foi sempre uma história de paradoxos e sentimentos contraditórios. Apesar de nunca ter sido completamente aceite na sua pátria devido à alegada permissividade às influências ocidentais, na verdade, muito do efeito encantatório da sua música reside, precisamente, na essência mais pura da sua linguagem, que faz a síntese da herança germânica com a tradição grandiloquente da alma russa.

     


    Gabriela Canavilhas, 2013

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