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  • 1. Alegretto

    2. Tempo andante, ma rubato

    3. Vivacissimo

    4. Finale: Allegro moderato 

     

    Jean Sibelius nasceu em Tavastehus, Finlândia, no ano de 1865 – o mesmo em que Anton Bruckner (1824-1896) e Dvořák (1841-1904) escreveram ambos as suas primeiras sinfonias, o mesmo em que foi dado a conhecer ao mundo Tristão e Isolda, de Wagner (1813-1883). Alguns poderiam ver nestes factos a premonição de uma grande carreira como compositor. Na verdade, terão sido acontecimentos marcantes na vida de Sibelius, mas apenas na medida em que a sua juventude e formação enquanto músico se desenrolou sob a influência do mais apurado Romantismo. Durante o período que correspondeu à sua juventude, foram estreadas outras obras fundamentais desse movimento e, muito particularmente, peças associadas aos diferentes nacionalismos que proliferaram em toda a Europa.

    Oriundo de um país periférico nas rotas culturais do Velho Continente e que apenas prestou atenção à música a partir da segunda metade do século XIX, o que comparativamente com os seus países vizinhos, Suécia e Noruega, foi muito tardiamente, Sibelius cresceu num cenário desfasado dos seus contemporâneos. A primeira companhia de ópera finlandesa data de 1873, e a primeira associação que permitiu o acesso dos jovens à educação e à cultura foi fundada um ano mais tarde. Sibelius foi, pois, um filho dessa geração. Se, por um lado, o atraso cultural do país em que vivia o terá prejudicado, por outro, o interesse dos governantes finlandeses em recuperar o tempo perdido terá representado um grande benefício. Na verdade, após concluir os estudos em Helsínquia, Sibelius pôde estudar nas melhores escolas de Berlim e Viena. No seu regresso à pátria, afirmou-se como o compositor mais proeminente da Finlândia, representante de uma jovem escola de composição marcadamente influenciada pelas correntes nacionalistas. Numa altura em que o seu país vivia sob a opressão do invasor russo, a sua música ganhou o estatuto de estandarte da alma finlandesa, razão pela qual Sibelius recebeu mesmo uma pensão vitalícia para poder compor livremente e não estar sujeito a pressões que afectariam a paz de espírito necessária ao bom desempenho do seu processo criativo.

    Da sua formação como herdeiro do melhor romantismo musical e deste isolamento geográfico resultaram traços característicos na sua música que o tornaram alvo das mais variadas críticas. Para a quase totalidade dos seus biógrafos ele foi o “génio solitário”; para compositores da vanguarda musical europeia, como René Leibowitz, foi “o pior compositor do mundo”. Uma coisa é certa: a sua música provoca este tipo de reacções apaixonadas, para o bem e para o mal, e, pela sua capacidade de comunicação com o público e brilhantes orquestrações, não deixa ninguém indiferente.

     

    A Segunda Sinfonia foi maioritariamente escrita em 1901 durante uma estadia do compositor em Itália, em Rapallo, e estreada em Helsínquia a 8 de Março de 1902. Este tipo de viagens que Sibelius executava frequentemente adaptavam-se ao seu estilo de vida solitário, de um homem que gostava de se rodear das coisas bonitas da vida, de bons vinhos e charutos, e de observar as mais belas paisagens. No entanto, e apesar de ter sido escrita em Itália, a sinfonia tornou-se desde a sua primeira audição pública um verdadeiro símbolo do nacionalismo finlandês – a par da Primeira Sinfonia e do poema sinfónico Finlândia. A esse respeito, cabe dizer que Sibelius havia casado em 1892 com Aino Järnefelt, a filha de uma das mais proeminentes famílias finlandesas que defendiam a libertação e a independência do país. Na última década do século XIX, o Czar Nicolau II havia decretado o chamado “Manifesto de Fevereiro”, que retirava os direitos constitucionais aos cidadãos finlandeses e lhes impunha leis muito estritas. Neste contexto, as suas composições tornaram-no uma espécie de Dvořák ameaçando a soberania alemã, ou um Chopin afirmando a alma polaca.

    O primeiro andamento, sobre o qual muitas opiniões diversas se escreveram, é uma forma-sonata que espanta o ouvinte pela sua aparente fragmentação. Esta decorre do seu início, onde sobre um acompanhamento de carácter rítmico nas cordas se desenvolvem pequenos fragmentos de carácter pastoral nas madeiras. Num idioma muito romântico, Sibelius surpreendeu por fazer um desenvolvimento assente no princípio de síntese temática, e nesse aspecto contraria a opinião generalizada de se tratar de um compositor retrógrado. A diferenciação rítmica é, igualmente, muito importante para a mudança de humores ao longo da sinfonia.

    O segundo andamento apresenta a tonalidade de Ré no seu modo menor. O esquema do acompanhamento nas cordas com a melodia nas madeiras repete-se aqui, mas com pizzicatos e um belo solo de fagote num tom bem mais toldado, que irá contrastar com uma secção em Fá sustenido maior.

    Segue-se o característico Scherzo dos terceiros andamentos, aqui numa espécie de perpétuo ritmo de subdivisão ternária e que apenas parece fragmentado pelas mudanças de tessitura próprias da orquestração. Com o aumento da densidade da textura, o andamento atinge momentos verdadeiramente grandiosos e que contrastam com a simplicidade pastoral dos trios onde a proeminência é dada ao oboé.

    O quarto andamento tem início sem interrupção e, talvez por isso, com um clímax imediato, quase majestoso. Todo o lirismo que Sibelius era exímio a atribuir às cordas (ele próprio era um grande violinista) é aqui magistralmente representado. É um longo andamento que ultrapassa os 16 minutos e onde persistem quatro temas e os seus motivos secundários assentes em claras diferenças de orquestração. Nele se percebe porque Cecil Gray considerou Sibelius o “maior sinfonista depois de Beethoven”, um compositor que para além de inspirado era um conhecedor profundo do métier composicional.

     


    Rui Pereira, 2005 

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