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  • 1. Allegro con brio

    2. Andante

    3. Poco allegretto

    4. Allegro

     

    A relação desenvolvida por Brahms com os cânones musicais da tradição ocidental, uma atitude considerada conservadora e tradicionalista na sua época, apresenta-se como um dos aspectos mais modernos da sua música. Garante uma continuidade entre passado e futuro: sobre as formas convencionais desenvolvem-se novas sensibilidades e novas explorações estruturais e harmónicas; e permite a compreensão de que, através do trabalho de (re)interpretação da tradição, Brahms redescobre e reinventa as possibilidades de renovação da linguagem musical. Nesta perspectiva, afigura-se-nos como central a Sinfonia n.º 3 em Fá maior, op. 90, onde a construção de arquitecturas formais “perfeitas” e coesas se poderia interpretar como uma procura de racionalização do “irrequieto”, “mutável” e “contraditório” Romantismo que percorre a obra.

    Brahms terá escrito a sua Sinfonia n.º 3 em 1883, quando contava cinquenta anos, num Verão passado na cidade de Wiesbaden, junto ao vale do Reno. A estreia da obra teve lugar na capital austríaca, a 2 de Dezembro de 1883, sob a batuta de Hans Richter que dirigiu a Orquestra Filarmónica de Viena com enorme sucesso: Richter considerá-la-ia, inclusivamente, como a “Heróica” de Brahms.

    Sendo a mais curta e compacta das quatro sinfonias do compositor, a Sinfonia n.º 3 assenta numa ideia de coesão e intensidade: três dos quatro andamentos assumem a forma-sonata; o tempo é idêntico em todos os andamentos, excepto no último; o motto temático que abre e enforma a sinfonia retorna decididamente fechando o círculo na sequência final do último andamento; a sucessiva justaposição entre Fá maior e Fá menor apresenta-se como dispositivo recorrente; os quatro andamentos são equilibrados em termos de duração e apontam para o cuidado com as proporções.

    O primeiro andamento (Allegro con brio) e o andamento final (Allegro) apresentam-se na tónica (Fá), enquanto os dois andamentos centrais (o Andante, de carácter elegíaco e de enorme expressividade, e o Poco allegretto, de carácter introspectivo e melancólico) assentam na dominante (Dó). De certa maneira, é como se a tensão harmónica entre os andamentos extremos e os dois andamentos centrais, remetesse para a sugestão de uma forma-sonata alargada ao longo de toda a obra. Contudo, a ambiguidade tonal é assumida, afirmando-se desde os primeiros compassos do Allegro con brio inicial, quando é apresentado o motto (fá – lá bemol – fá) que percorrerá todo o andamento e aparecerá mais uma vez no Finale (segundo o estilo brahmsiano de tirar o maior partido de material bastante sintético, técnica que encontramos também nas suas outras obras sinfónicas). O andamento deveria ser em Fá maior mas o motto, de apenas 3 notas, desemboca na consequência harmónica de a nota central nos remeter, dubiamente, para o modo menor. Esta ambiguidade está presente em todo o primeiro andamento, caracterizado por modulações inesperadas. A expressão “Frei aber froh” (“livre, mas alegre”), frequentemente usada por Brahms, tem sido apontada como inspiradora do motivo melódico subjacente à obra (F-A-F, segundo a terminologia musical germânica, ou seja, fá – lá – fá).

    O início do Andante que constitui o segundo andamento apresenta-se em jeito de coral nas madeiras e o seu tema reaparecerá, delicadamente, a fechar a secção. Estando também aqui presente o “motto” da obra, este andamento é igualmente caracterizado pela ambiguidade harmónica maior-menor. O terceiro andamento, Poco allegretto, em Dó menor, revela-se uma melancólica “dança” em ritmo ternário, e o seu enorme sucesso resultaria na sua repetição frequente como encore nos concertos do compositor. A figura recorrente de três notas é aqui encontrada no acompanhamento e o andamento termina com acordes em pizzicato nas cordas, sobre madeiras em destaque. O Allegro final assenta em Fá menor, e o habitual desenrolar resolutivo das tensões acumuladas ao longo da sinfonia é adiado até à coda, que invulgarmente terminará a obra num sereno pianissimo.

     


    Rosa Paula Rocha Pinto, 2016

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